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Crítica: “Westworld” entrega um segundo ano nitidamente inferior ao primeiro, mesmo com muitos méritos

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Fazendo jus à toda expectativa e divulgação feita pela HBO antes de seu lançamento, a primeira temporada de Westworld foi um sucesso, sabendo conciliar uma faceta mais “conceitual” com outra de apelo mais popular ao público, rapidamente envolvido pelos mistérios e pela trama intrincada, ao ponto de fãs e mais fãs caçarem easter-eggs e desvendarem segredos da trama antes deles virem ao ar. Mesmo com essas revelações precoces, a maioria destas vieram na hora certa dentro dos primeiros dez episódios da série, mostrando um produto pensado com cautela e que ainda assim era capaz de surpreender – vide sua fantástica última cena, que nos deixou com aquele gostinho de “quero mais”.

É uma pena, portanto, que a segunda temporada termine nos dando mais um sabor agridoce do que satisfatório. Ainda que este segundo ano carregue diversas qualidades, é nítido o decaimento na qualidade da trama e da organização deste mundo. Pior, tudo isso é mascarado com alguns recursos que já revelam um esgotamento prematuro na série – mas que parecem agradar o público.

Se no primeiro ano tínhamos o despertar de consciência de alguns dos “anfitriões” (os andróides programados para satisfazerem os desejos dos humanos que visitassem o parque Westworld) e encerrava no início da sua revolta, aqui temos as consequências imediatas desta revolta e os esforços da Delos, empresa dona do parque, em conter os estragos e manter seus próprios projetos escusos. A maior parte da temporada se desenrola nas duas semanas seguintes ao final da primeira temporada, além de flashbacks que levam o espectador de volta a um passado mais distante, naqueles 30 anos que separavam as duas principais linhas temporais da temporada anterior.

Assim, a temporada se subdivide em vários núcleos, que se interconectam ou prosseguem isoladamente. Temos Dolores (Evan Rachel Wood) e seu amado Teddy (James Marsden) liderando o braço principal da insurreição contra os humanos; Maeve (Thandie Newton) e seu time em busca da sua filha, numa jornada mais intimista que revela novos relances deste mundo; William (Ed Harris) em uma jornada própria ao mesmo tempo em que é confrontado por segredos e figuras do seu passado; e Bernard (Jeffrey Wright), que atua tanto no presente como uma espécie de narrador (não-confiável) quanto nas duas semanas anteriores, conforme seus caminhos se cruzam com diversos outros personagens.

Essa mudança de foco e ampliação de escopo não é um problema – diversas séries fazem isso a partir de suas segundas temporadas. Porém, a condução é extremamente problemática, culpa de um roteiro que se faz de mais inteligente do que realmente é, constantemente sacrificando o desenvolvimento de seus personagens em prol de revelações e mais revelações, surpresas que nunca chegam a surpreender de fato (nem mesmo os retornos de alguns personagens). Parte do charme da primeira temporada consistia em nos permitir um envolvimento com estes personagens, mesmo os mais amorais, e isso é praticamente inexistente aqui.

Tome por exemplo Dolores, que perde parte de seu protagonismo nesta temporada, o que não é um ponto negativo. Entretanto, se no primeiro ano criávamos empatia com ela pelas suas complexidades conforme as épocas por quais passava e o quanto crescia, aqui ela se torna uma personagem de uma nota só, reduzida a uma “líder raivosa” que quer destruir a humanidade a qualquer custo, com uma motivação que simplesmente vem do nada. Pior ainda é o fato de ser reduzida a linhas de diálogo forçadas, repletas de frases de efeito repetitivas que não chegam a lugar algum – um pedantismo da série que se era tolerável na primeira temporada, aqui se torna insuportável. Da mesma forma, Bernard era um dos personagens mais curiosos e enigmáticos da primeira temporada, dono de um dos melhores plot twists que a série entregou, e aqui se vê resumido a um papel de narrador, cujas memórias vão e voltam no tempo conforme for andamento pro andamento da trama. Quem perde nisso é o espectador.

Além disso, se os primeiros episódios parecem indicar que a trama evitará quaisquer complicações desnecessárias, apostando numa trama direta, isso é logo subvertido na segunda metade, onde cada episódio parece almejar ser mais críptico e enigmático do que o anterior, culminando numa season finale que se torna absurda de tão confusa. O problema é que esse não é o tipo de confusão que nos instiga, mas sim parece conduzir a um enfado e aborrecimento, como se a série perigasse se perder, ou não soubesse para onde está indo. É paradoxal, portanto, que ao mesmo tempo essa temporada seja carregada de diálogos expositivos que soam inorgânicos dentro da trama, como se os criadores subestimassem seu público enquanto tentam confundi-lo.

Dito isso, é curioso que alguns dos melhores momentos da temporada concentrem-se justamente nos momentos “micro”, aqueles mais intimistas e voltados para seus personagens. Exemplo disso são os flashbacks que ampliam nosso conhecimento sobre a empresa Delos e seus donos no segundo episódio, Reunion, bem como aqueles envolvendo William e outro personagem em The Riddle of the Sphinx e com sua família em Vanishing Point. Isso sem contar o delicado Kiksuya, que pausa momentaneamente as tramas para dedicar espaço à misteriosa Nação Fantasma, uma das adições mais fortes desse ano, e faz essa pausa de forma extremamente competente.

O mesmo não pode ser dito do contrário Akane no Mai, que tanto prometia por prenunciar a chegada de mais um parque, “Shogun World”, e acaba se revelando um filler frustrante. É esperar para ver se os breves relances do Shogun World (e do “Raj World” surpreendentemente e introduzido em Virtù e Fortuna) sejam uma preparação da série para os outros parques que existem.

Em termos técnicos a série mantém-se com o altíssimo padrão que a HBO tem instituído para seus produtos. As direções dos episódios se mantém bastante coesas, embora haja um excesso de slow motions que se revelam forçados sempre que aparecem, seja para intensificar momentos épicos ou ampliar o melodrama. Quem não decepciona de forma alguma é Ramin Djawadi, que mantém seu brilhantismo na composição para a série, passeando por temas que remetam ao faroeste do parque Westworld e os elementos futuristas e reflexivos das partes situadas nas áreas de controle do parque. Além disso, se o Raj World e o Shogun World não têm tanto espaço quanto se esperava, ao menos rendem dois covers excelentes que se juntam ao panteão que Djawadi tem homenageado na série: Seven Nation Army do White Stripes numa versão tocada numa cítara para homenagear os elementos indianos e C.R.E.A.M. do Wu Tang-Clan (grupo de rap conhecido por suas referências à cultura oriental) tocada num koto em Akane no Mai. Como fã de Radiohead, só posso lamentar que a banda não tenha tanto espaço quanto teve na primeira temporada, mas não posso negar a felicidade que tive em ver o cover de Codex mesclada à versão original no encerramento do último episódio, potencializando assim os ganchos deixados para uma próxima temporada.

Mesmo diante de uma experiência morna e frustrante em muitos aspectos, sem dúvidas a série termina seu segundo ano nos deixando com dúvidas suficientes para nos prender ao próximo ano, já confirmado. Entretanto, só o mistério pelo mistério não é suficiente para uma boa trama, e muito da essência que tornava Westworld tão especial em sua primeira temporada é visivelmente perdido aqui. Uma pena, diante do quão promissora essa temporada pareceu ser lá em seu começo. A série se junta à Game of Thrones como um reflexo da capacidade da HBO de perder a mão em seus produtos de maior sucesso junto ao público, mas ainda resta uma esperança de que os erros vistos aqui sejam devidamente corrigidos para que a série possa expandir seu universo de forma mais coerente, sem sacrificar seus personagens e uma boa trama para isso.

 


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