/“Legalize Já” se prova uma bela jornada sobre amizade, sociedade e música na formação do Planet Hemp

“Legalize Já” se prova uma bela jornada sobre amizade, sociedade e música na formação do Planet Hemp

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“Legalize Já” se prova uma bela jornada sobre amizade, sociedade e música na formação do Planet Hemp
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Lançado nos cinemas brasileiros na última quinta-feira (18), Legalize Já – Amizade Nunca Morre é um filme biográfico sobre a formação do célebre grupo nacional de rap/rock Planet Hemp, enorme sucesso da década de 90 encabeçado por Marcelo D2 e que gerou uma enorme polêmica a época por suas letras favoráveis a legalização da maconha e suas fortes críticas sociais. O longa, dirigido por Johnny Araújo Gustavo Bonafé, foca em retratar o período da pré-fama e de formação da banda no Rio de Janeiro, e a relação de amizade entre D2 e o músico Skunk, responsável pela criação de um dos maiores fenômenos do Hip-Hop nacional de todos os tempos.

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(Imagens: Divulgação)

Com os ótimos Ícaro Silva no papel de Skunk e Renato Góes como D2, a história é ambientada em 1993, no submundo das classes pobres e marginalizadas do Rio de Janeiro, num contexto de instabilidade em um Brasil pós-Collor. Sob esse cenário, somos introduzidos ao protagonista Marcelo Peixoto, um humildade camelô que ganha a vida vendendo camisas de bandas clássicas do rock, como AC/DC, Pink Floyd e Led Zeppellin, no centro do Rio. As primeiras cenas que introduzem o arco narrativo de Marcelo são colocadas no formato de “um dia na vida”, onde acompanhamos com ele seu ambiente de trabalho e suas dificuldades financeiras, seu relacionamento amoroso problemático e a fria relação com seu pai (Stepan Nercessian), que quer expulsá-lo de casa. No fim do dia, sabendo que ele ainda precisa juntar dinheiro para pagar o aborto de sua namorada (Marina Provenzanno) que está grávida, percebemos toda a angústia e preocupação que assombram a vida do personagem. Paralelo à isso, somos apresentados ao Skunk, um jovem apaixonado por música e que vende fitas gravadas por ele de artistas famosos do cenário internacional. Diferente de Marcelo, em um primeiro momento sua vida pessoal não entra em cena, o retratando como um rapaz simples e aparentemente satisfeito com seu cotidiano e seu trabalho de pequenas vendas.

De forma quase poética, as histórias dos dois se cruzam coincidentemente pelo mesmo motivo: o abuso policial. Enquanto Marcelo tenta salvar suas camisetas durante um “rapa” da polícia nos camelôs, Skunk sofre um mal entendido e é perseguidos por guardas, sendo vítima do racismo latente em seu dia-a-dia. Esbarrando-se em meio a toda essa confusão, os personagens são apresentados um ao outro por conta da marginalização e perseguição social sofrida por ambos, como se o sistema que os oprime, tivesse acidentalmente unido dois jovens que tinham muito em comum.

Os planos retratam a sujeira e o degradamento da vida urbana pobre, nos mergulhando no dia-a-dia das ruas, nas noites perigosas e na boêmia carioca, tudo isso captado por uma fotografia dessaturada, fria e quase em preto e branco, utilizando cores esmaecidas com pouca vida, refletindo a dureza daquela realidade e criando uma atmosfera visual pesada e desconfortável, na intenção de fazer jus ao ambiente hostil no qual os protagonistas estão inseridos.

Maconha de lado e foco na crítica social

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“Não se trata só de maconha, se trata de legalizar, e legalizar tudo para todos” diz Skunk, em uma definição para a identidade da banda que também pode ser aplicar ao longa.

Apesar de ser fato conhecido que o Planet Hemp sempre foi um porta voz dos “maconheiros”, quem esperava um filme intensamente ligado à cultura canábica se enganou. Claro que existem cenas que tratam do consumo da erva, mas o roteiro evita se apoiar na apologia (marca registrada da carreira da banda) e acaba que a “planta” não passa de um detalhe frente a principal mensagem da obra. Talvez um dos maiores acertos da direção e do sólido roteiro de Felipe Braga, tenha sido a brilhante conexão dos temas abordados ao longo da história, com algumas das pautas e problemas mais discutidos atualmente no país: o aborto, racismo, LGBTfobia, violência policial e a instabilidade política são elementos presentes em praticamente todo o filme, servindo como crítica e até mesmo sátira do atual momento em que o Brasil se encontra como sociedade.

Desde questionamentos sobre o risco que o aborto ilegal pode trazer a uma mulher pobre que não tem dinheiro para pagar um procedimento mais “limpo”, passando pela instabilidade de um país que acaba de assistir ao impeachment de um presidente, até as constantes e revoltantes cenas de racismo agressivo sofrido por Skunk nas ruas, por parte tanto de policiais quanto de pessoas comuns, o tom do filme é permeado pelo retrato da realidade dura que as classes mais baixas enfrentam no país, e que servem de reflexo para o Brasil de 2018. E desde o primeiro frame, que mostra Marcelo nos Arcos da Lapa escrevendo versos em um pequeno caderno, o longa retrata de que forma os dois protagonistas se utilizam igualmente de sua arte e criatividade como válvula de escape para seus problemas. E é assim que, unindo os poemas de Marcelo com a produção musical de Skunk, elementos advindos da mesma dor, o Planet Hemp é construído com sua sonoridade única.

A música e as influências culturais que construíram a banda

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“Essa é a década da pobreza cultural” diz Skunk em dado momento do filme, criticando a cena musical em alta na época, como o pagode e o axé.

Como não poderia faltar em uma biografia de artista musical, a música é um elemento essencial na narrativa da obra e uma das coisas mais legais da história, certamente um deleite para quem é fã (assim aquele que vos escreve) de rock e do hip-hop de raiz . As referências são inúmeras ao longo do filme, e para quem é familiarizado com os gêneros, é primoroso ver como o som característico do Planet Hemp foi moldado por grandes nomes das décadas de 70, 80 e 90, bebendo de diversos estilos musicais para criar a mítica mistura de “RapRocknRollPsicodeliaHardcoreRagga” que conquistou o país.

Desde o primeiro diálogo entre os dois, onde Skunk questiona Marcelo sobre a blusa do Dead Kennedys (banda de punk rock californiano) que ele estava usando, o laço entre os dois se constrói também pela pela paixão em comum com a música. No quarto de Skunk é possível ver diversos posters, camisas e fitas de artistas como Dr. Dre, De La Soul, Joy Division, Sex PistolsRamones, Ratos de Porão, Afrika Bambataa, Grandmaster Flash, Faith No More, Smashing Pumpkins, entre inúmeros outros, onde podemos perceber que, antes de se tornarem artistas, nossos rappers eram fãs acima de tudo, o que trouxe uma imensa riqueza para o trabalho deles posteriormente. Uma cena que representa perfeitamente esse “lado fã” é quando ambos estão na casa do Marcelo (que ainda não tinha muito conhecimento sobre o hip-hop), assistindo ao clipe de Shake Your Rump do clássico grupo de rap Beastie Boys, numa espécia de “aula” de como ser rapper, em tentatives bem humoradas de imitar a voz e os movimentos de seus ídolos (convenhamos, quem nunca fez isso em casa?).

Além disso, a música também é usada de forma criativa como contraste da realidade dos personagem e para simbolizar tudo aquilo que eles se opõem no sistema e querem fugir. Enquanto eles cultuavam Sepultura, N.W.A., Public Enemy e Cypress Hill, a música popular brasileira é tomada de assalto por gêneros mais voltados ao entretenimento simples e de massa, que são contrapontos com a ideologia e a rebeldia da dupla, que desejam romper com a indústria, o capitalismo e as normas sociais naquele momento. A cena que melhor resume esse contraste de ideias e realidades é quando Marcelo começa a trabalhar em uma loja “careta” de eletrodomésticos para pagar as contas, e após levar broncas de seu patrão, ele se sente aprisionado e fica desgostoso pois as televisões da loja não paravam de tocar Na Boquinha da Garrafa, sucesso do É O Tchan, retratando toda sua angústia e revolta com o convencional, o mainstream e o comercial, em um belo trabalho de edição e montagem.

Skunk e o ingrediente místico

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Ao longo da obra, vemos que a trajetória de Marcelo é quase uma clássica “Jornada do Herói” á lá Joseph Campbell, onde o protagonista vive em seu mundo pacato e regular e tem dificuldades de aceitar o chamado à aventura, alcançando o sucesso e a glória posteriormente. Apesar de ser uma estrutura de ascensão clichê, o grande trunfo da trama se encontra no personagem de Skunk. Diferente do arco do protagonista, o dele não apresenta a sua vida pessoal, seus conflitos internos explícitos e quase nada que uma pessoa convencional se preocupa. Ele é livre, desprendido e um gênio criativo, simbolizando quase uma figura mística na vida de Marcelo e sendo o responsável por fazer com que D2 se interesse e mergulhe de cabeça na carreira musical, atuando sempre como um ar de mistério e sendo o principal tempero diferenciado que adiciona um sabor único a história. A construção do misticismo de Skunk é brilhantemente realizada por um roteiro bem costurado e pela belíssima atuação de Ícaro Silva (sem dúvida a melhor do filme), onde ficamos instigados com toda a jornada do personagem que acontece paralelamente a principal, e de que forma ele ensina e influencia a vida de Marcelo, dando a ele o incentivo necessário para que o astro largasse sua vida pobre e se aventurasse na arte, além de ter proporcionado as primeiras oportunidades e ter praticamente idealizado da banda, ao mesmo tempo em que lutava contra seus próprios demônios, como o racismo e sua saúde. Posteriormente, quando o clímax dramático vem a tona, é possível compreender que seu grande objetivo era encontrar alguém para quem ele pudesse dedicar sua criatividade, abdicando-se de qualquer desejo pessoal por fama e dinheiro, querendo apenas que sua mensagem fosse transmitida e eternizada.

É uma homenagem emocionante e justíssima ao músico Skunk, morto em decorrência da AIDS em 1994, apenas meses antes do lançamento do primeiro álbum da banda, o antológico Usuário (1995), que contém sucessos absolutos como Mantenha o Respeito, Legalize Já e muitos outros. Uma verdadeira ode a uma pessoa brilhante, que passou por todos os tipos de dificuldade e que, infelizmente, nunca teve a chance de experimentar o merecido sucesso.

Pontos fracos

Apesar de um delicioso trabalho cinematográfico, o longa biográfico não é isento de críticas. Mesmo tendo um belo e redondo roteiro, alguns “arcos” ficaram relativamente soltos no desenrolar da trama, como o do pai de Marcelo, e principalmente alguns que simplesmente ficaram sem explicação, como é o caso do comerciante argentino Brennand (Ernesto Alterio), que apesar de carismático e divertido, nunca consegue-se ter uma verdadeira noção sobre sua relação tão próxima com Skunk (sendo que ele até mesmo o deixa usar os fundos de seu bar como estúdio), deixando certas pontas soltas e que nunca chegam a um verdadeiro esclarecimento, prejudicando a compreensão da história. Da mesma forma, esses arcos soltos impedem o que poderiam ser debates mais aprofundados sobre as pautas sociais, e a história acaba por convergir e perder fôlego apenas para sua temática central de drama.

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Concluindo, apesar de alguns poucos lados negativos, Legalize Já – Amizade Nunca Morre se sustenta como uma prova da qualidade artística e técnica do cinema brasileiro, abusando de bons enquadramentos, fotografia e cores marcantes, que contrastam com os ótimos momentos de humor (como nas menções ao pagode e a cena do culto), e que servem de ferramenta para um roteiro muito bem cuidado em termos narrativos e uma jornada emocionante sobre amizade, sociedade, legado, arte e rebeldia, eternizando a memória de Skunk e preservando história de uma das maiores bandas que já nasceram no Brasil.


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Estudante de Jornalismo, redator e aficionado por cultura, seja no cinema, na música ou até mesmo no esporte.