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4 filmes sobre a Copa do Mundo para entender seu impacto socio-cultural

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Em épocas de Copa do Mundo, aquele velho debate é levantado: o torneio é ou não um evento milionário, em que os brasileiros se distraem e ignoram os problemas do país, o famoso “pão e circo“? Essa discussão ganhou força quando o Brasil foi a sede, em 2014, e até hoje permanece como uma incógnita. Apesar de seu caráter comercial, é inegável dizer que a copa (e o futebol em si) são muito mais que um entretenimento, mas também tratam-se de um fenômeno social, político e cultural, que ao longo da história já foi responsável por inúmeros desdobramentos na sociedade.

E como a arte, em especial o cinema, é um reflexo da vida real, diversos filmes e documentários já foram produzidos com a intenção de retratar a forma com que o futebol e seu principal campeonato influenciam (ou já influenciaram) no âmbito político e social, desde sua criação até os dias de hoje. Pensando nisso, a Odisseia Pop preparou uma lista com dicas de obras cinematográficas para quem quiser entender melhor sobre o assunto, e aumentar ainda mais o clima neste mundial da Rússia. Confira:

Les Bleus: Uma outra história da França (1996 – 2016) (2016)

Durante décadas, a Seleção Francesa foi relativamente modesta no que diz respeito a grandes conquistas internacionais. Entretanto, esse quadro mudou na década de 90, quando um brilhante esquadrão (que em sua maioria foi constituído por jogadores negros e imigrantes) formado por nomes como Trezeguet, Thuram, Karembeu, Thierry Henry e capitaneados pelo deus Zidane mostrou ao planeta inteiro que a França era uma das grandes potências do mundo da bola, vencendo a Copa do Mundo de 1998, a Eurocopa de 2000 e a Copa das Confederações de 2001. Após essa geração começar a sofrer pesadas eliminações em torneios importantes posteriormente, a culpa começou a cair sobre os jogadores de origens mais humildes (majoritariamente negros) e descendentes de imigrantes (especialmente do Oriente Médio), e sobre a “mistura racial” que começou a ser vista como causadora dos fracassos dentro de campo, mesmo sendo estes os principais responsáveis pelas maiores glórias que o país já alcançou no futebol, e gerando um intenso debate sobre a questão da identidade nacional, do racismo e da xenofobia.

Dessa forma, o documentário faz um brilhante estudo analítico sobre os últimos vinte anos da seleção, período em que a França passou de coadjuvante para protagonista no cenário esportivo mundial, e retrata como o futebol é um espelho da sociedade francesa, bem como de seus problemas estruturais. Lançado na época em que o país sediou a Eurocopa de 2016, o longa passeia por episódios recentes da história francesa, como os atentados terroristas de 2015 (que ocorreram nos arredores do Stade de France, durante uma partida entre França x Alemanha) e o massacre de Charlie Hebdo, sempre traçando um paralelo entre o futebol e as questões sociais do país.

Além disso, a obra também conta com os depoimentos de personalidades como Eric CantonaFrançois Hollande, Lilian Thuram e Omar Sy, que relatam casos que servem como o fio-condutor da narrativa, como o amistoso entre França e Argélia que terminou em confusão e invasão de campo por problemas históricos, os questionamentos por parte de políticos conservadores acerca do fato de que muitos jogadores não cantavam o hino da França e diversos outros acontecimentos que fizeram o futebol ter uma verdadeira influência na vida social e política da terra de Napoleão. Uma obra simplesmente imperdível sobre esporte e sociedade (e ainda está disponível na Netflix).

A copa (1999)

De acordo com o estereótipo ocidental, os monges budistas são seres pacíficos, disciplinados e sem paixão, certo? Bom, o longa do diretor Khyentse Norbu, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e baseado em fatos reais, mostra o contrário. A grande pergunta que resume o enredo do filme, e que esteve estampada nos cartazes promocionais, é a seguinte: “Como um monge pode manter a mente nos estudos enquanto Ronaldo joga pelo Brasil?

Em plena Copa do Mundo de 1998, um jovem monge tibetano de 14 anos chamado Orygen, completamente apaixonado por futebol, busca fazer de tudo para conseguir assistir as principais partidas do torneio disputado na França naquele ano, incluindo fugir do monastério durante a madrugada para assistir aos jogos. O menino tem como seu principal ídolo o nosso Ronaldo Fenômeno, principal estrela brasileira de 98, usando sempre uma camisa escrita “Ronaldinho” por baixo de sua tradicional túnica budista, além de manter um “santuário” em seu quarto com imagens dos grandes craques da época e até organizando peladas no monastério, substituindo a bola por uma latinha de refrigerante.

O filme foi a primeira obra cinematográfica originária do Butão, um pequeno país asiático na região do Himalaia de tradições budistas, onde todo o elenco (constituído por verdadeiros monges locais e sem atores profissionais) e até o próprio diretor foram criados.  É uma comédia extremamente original e interessante, que traz a tona um grande debate sobre como a globalização e a vida moderna (e o futebol, consequentemente) causam impacto até mesmo dentro de rígidas tradições culturais.

O Milagre de Berna (Das Wunder von Bern) (2003)

A primeira metade do século XX foi terrível para a Alemanha: foram protagonistas das duas piores guerras da história da humanidade e saíram severamente derrotados de ambas, sofreram pesadas e humilhantes punições internacionais, tiveram seu país divido por um muro, fora as imensas crises econômicas, políticas e sociais que o povo germânico foi vítima durante o período. Depois de décadas vivendo no inferno, os alemães pareciam não ter mais motivos para se orgulhar do país e celebrar sua identidade nacional, até que esse aspecto mudou no ano de 1954.

A Copa do Mundo de 1954, sediada na Suíça, foi onde o povo alemão teve um pequeno sopro de felicidade em meio a devastação deixada no país pela Segunda Guerra Mundial, que havia terminado apenas nove anos antes. Tecnicamente limitada, a seleção fez uma dramática, porém surpreendente campanha durante o torneio até chegar a grande decisão contra o melhor time do mundo na época: a poderosa Hungria de Púskas, invicta a quatro anos e favorita disparada para o título. Em uma das melhores finais de Copa, a Alemanha começou perdendo por 2-0, até buscar o empate e conseguir a virada por 3-2 já no final do jogo, onde os guerreiros germânicos lutaram contra o sentimento derrotista de seu país, bateram um dos melhores times da história do futebol e conquistaram a primeira Copa do Mundo da Alemanha. Uma história digna de roteiro de cinema.

Foi exatamente isso que o diretor Sönke Wortmann pensou para fazer o filme sobre o chamado “Milagre de Berna” (em alusão a cidade suíça que foi sede da final). O longa de 2003 retrata o drama da família Lubanski, que tem seu patriarca Richard como um homem amargo e recém-chegado da guerra, que não conheceu seu filho mais novo e tem uma grande dificuldade de relacionamento com seus filhos mais velhos (dois adolescentes simpatizantes do comunismo). Matthias, o caçula, é apaixonado por futebol e provoca desgosto em seu pai por tal paixão, e no meio de todo esse drama familiar, a Alemanha disputa a Copa do Mundo na Suíça, até que a situação da família se cruza com a final em Berna. Um belíssimo filme sobre um dos episódios mais épicos do futebol.

O Ano em que meus pais saíram de férias (2006)

Uma lista de filmes sobre a Copa do Mundo não poderia estar completa sem uma produção brasileira, afinal, em poucos lugares desse planeta o torneio da FIFA provoca um impacto cultural tão profundo quanto em terras tupiniquins. Entre os cincos títulos do Brasil na competição, talvez o mais saboroso e épico de todos seja o tri-campeonato da Copa de 1970, realizada no México, onde o esquadrão de Pelé, Rivellino, Jairzinho, Félix, Tostão, Carlos Alberto Torres  & Cia foi responsável pela melhor campanha de uma seleção em Copas do Mundo (7 jogos, 7 vitórias e 19 gols) e é amplamente considerado o melhor time de futebol de todos os tempos.

Entretanto, em contraste com a magia que aquele esquadrão mostrava em campo e a alegria dos torcedores, o Brasil passava pelo auge da Ditadura Civil-Militar, que na época era comandada pelo General Emílio Garrastazu Médici, responsável pela fase mais repressiva e violenta do regime. Utilizando a grande fase da amarelinha como propaganda política e nacionalista, aquela Copa também serviu como uma máscara para os intensos problemas sociais que o povo brasileiro sofria na época, com prisões arbitrárias, censura dos meios de comunicação, tortura e exílio de brasileiros suspeitos de irem contra o governo.

E é sob esse pano de fundo que a história do filme é narrada. Mauro, um menino de 12 anos apaixonado por futebol, possui uma vida tranquila com sua família, até que tudo muda quando os seus pais inesperadamente decidem “sair de férias”, sem planejamento e sem um motivo aparente para o garoto, deixando-o sob os cuidados de seu avô. Na realidade, seus pais sofreram um exílio forçado, comum na época, por serem militantes de esquerda e resolveram fugir do país. Dessa forma, o menino se adapta a sua nova vida em São Paulo sem seus pais, enquanto se distrai dos problemas (junto com o resto do país) acompanhando a brilhante seleção de Zagallo fazer história no futebol. O filme foi dirigido por Cao Hamburguer, foi o eleito pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil no Oscar de 2008 e entrou para a seleta lista dos 100 Melhores Filmes Brasileiros da Associação Brasileira de Críticos de Cinema.


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Estudante de Jornalismo, redator e aficionado por cultura, seja no cinema, na música ou até mesmo no esporte.