Silêncio: a maior lição de liderança em House of Cards

Compartilhe

5/5 - (1 vote)

A celebrada série House of Cards (Netflix) tornou-se bem famosa, entre outras coisas, pela verborragia e frases impactantes de um dos protagonistas, Frank Underwood. Mas é no silêncio que podemos tirar a maior lição de liderança em House of Cards. Principalmente no silêncio triunfal da outra protagonista, Claire Underwood.

“Tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa tem a sua ocasião . . . tempo de ficar calado e tempo de falar.”

— Eclesiastes 3:1, 7, Bíblia na Linguagem de Hoje

Poderíamos dizer que o Rei Salomão escreveu esses versos pensando em Claire Underwood. Ou então poderíamos dizer que ela leu esses versos e decidiu aplicá-los muito bem. Ao longo de todas as seis temporadas de House of Cards, Claire se desliza em silêncio, mas quando abre a boca para falar consegue atingir grandes resultados.

Embora o silêncio possa ser muito bem usado, para o bom, ele também pode ser muito mal usado, para o mau. Vamos ver, a seguir, como Claire Underwood fez isso.

Claire usa o silêncio para o bem

Silêncio: a maior lição de liderança em House of Cards

 

No capítulo 38 (T3E12), numa visita de campanha, Claire visita uma simples dona de casa do Iowa, com um bebê no colo, que nem votaria em seu marido, e candidato, Frank Underwood. Ela pede para entrar, achando que pode convencê-la a mudar de opinião sobre o voto. Começa a ouvir dessa mulher um relato das mulheres humanas e mortais. Primeiro, que tinham votos divergentes. escuta sobre uma grande lista de murmurações maternais: fadiga, exaustão, solidão, mas a liberdade de, naquela vidinha, provavelmente possuir mais liberdade que Claire. Ela também ouve sobre os desgostos que aquela mulher sente em momentos delicados, quando fantasia usar uma almofada para asfixiar o bebê e fugir correndo daquele casamento e daquela maternidade tão desejada.

Claire ouve tudo em silêncio atencioso! Tanto é que a mulher diz a Claire: “Você sabe mesmo ouvir. Queria que você tivesse se candidatado a presidente. Pode dizer a eles que vou apoiar seu marido, se quiser.” A senhora Underwood sai da casa completamente atônita. Perguntada pela imprensa, ao sair da casa, se a mulher mudou de ideia, Claire responde que “não, ela ficou firme. Mas não se pode culpar uma mulher por ter convicções.”

Silencio-a-maior-licao-de-lideranca-em-House-of-Cards

Como o líder excelente usa o silêncio para o bem

Algumas pessoas têm dificuldade em não falar e acostumam-se a explicar demais. Mas o silêncio é um bem muito precioso porque nos permite parar e pensar antes de agir ou falar. O o silêncio produtivo nos ajuda a pensar e a refletir, nos ajuda a entender o ambiente e a criar chance de interlocução.

Se soubermos ouvir em silêncio, prestando atenção sem interromper, conseguiremos nos concentrar no que o outro diz e a elaborar a resposta depois. Quando falamos sem parar, sem fazer pausas, isso dificulta a interação do outro na conversa.

O líder não pode responder sem pensar, mesmo que fique literalmente parado, sem falar nada, por vários segundos, ou até mais de um minuto. Pensar e refletir em silêncio, antes de responder, é essencial para falar algo que faça a diferença.

Ao aprender a lidar com o silêncio, o líder excelente obtém diversos ganhos:

  1. Aprende a escutar, que é o primeiro passo para demonstrar empatia.
  2. Consegue analisar a situação como um todo, tendo uma super visão de um horizonte mais amplo.
  3. Quando o líder está em silêncio, ele consegue ouvir o que não é dito, ou seja, as expressões faciais e postura corporal do outro e fortalece sua presença.
  4. O silêncio reforça a intuição, ajudando a tomar decisões com sabedoria, não apenas baseadas em fatores como a lógica e a razão.
  5. Aprende a poupar energia, sim, com foco no que interessa e não gastando palavras com o que não merece séria consideração.

Claire usa o silêncio para o mal

A partir daquela visita, Claire começará a questionar tudo, se vale a pena tudo que tem feito, todas as renúncias (de nunca ter sido mãe, por exemplo). A partir dali, Claire definitivamente não será a mesma. Deixa de comparecer aos importantes compromissos de campanha do marido, ao discurso de vitória no Iowa, não atende as ligações renitentes de Frank, que naquela situação pensa apenas em votos.

E quando Frank volta sozinho da vitória no Iowa, tem o esperado embate, em verdadeira explosão, ambos dizem coisas que estavam guardadas pelo silêncio. Francis usa palavras duras e dá ordens expressas sobre o que Claire deverá fazer no dia seguinte: ‘pegar o avião e viajar a New Hampshire, fazer campanha, estar com ele no palco, comportar-se como primeira-dama’. Claire responde apenas com um profundo silêncio. Mas não se engane: o ensurdecedor silêncio externo dela nada mais é que o reflexo interno de um ego extremamente exaltado, recheado de poderosa – e falsa – indiferença que só serve para manipular. E é isso que ela faz no dia seguinte quando, no pleno controle da situação, se apronta totalmente dando sinais silenciosos de que viajará, e na hora derradeira vira-se ao marido e diz: “Não vou a New Hampshire…Vou deixar você” e parte, silenciosamente.

Alguns começaram a assistir House of Cards achando que o verborrágico personagem Frank Underwood era o protagonista (o único). Achavam também que era o mais poderoso (o único). Alguns sentiam mais confiança em Frank, talvez porque ele sempre tenha deixado muito claro seu objetivo, falando com o público, compartilhando suas intenções. Mas parece que estavam todos enganados, inclusive o próprio Frank.

Ao que tudo indica, Claire Underwood estava no controle desde o início, em silêncio. Mesmo quando teve de renunciar a várias coisas pelo marido, ainda mantinha-se em controle exatamente por utilizar bem o silêncio. Ao longo das temporadas, presenciamos aquela que era apenas esposa do corregedor da Câmara chegar à presidência definitiva dos EUA. Como o próprio Frank reconheceu, “não haveria Casa Branca sem a Claire”. A senhora Underwood chegou ao comando da nação americana usando seu poderoso e silencioso armamento, quando necessário, contra todos, especialmente contra seu marido. Isso é doloroso para Frank, assim como é doloroso para quem passou vários anos assistindo a série torcendo por ele em detrimento da senhora Underwood. No final, Claire manipulou silenciosamente a todos e isso é compreensivelmente doloroso.

O líder excelente não usa o silêncio para o mal

O silêncio maldoso é usado como forma de manipulação ou vingança, ou mesmo para demonstrar indiferença, como se estivesse sem emoções e quisesse demonstrar que não se importa. Também é usado para ocultar as verdadeiras intenções, como Claire fezno exemplo acima.

O líder excelente jamais deve usar dessas táticas, e jamais deve usar o “tratamento de silêncio”, ou seja, ficar um tempo ignorando o seu liderado, ou até mesmo ignorando sua presença.

A lição é tão simples quanto isso.

O líder excelente presta atenção ao silêncio da equipe

Quando o líder percebe que o time não está querendo se manifestar, por exemplo, numa reunião… o que fazer?

O primeiro passo é refletir, em silêncio, qual seu grau de responsabilidade nesse silêncio defensivo do time. Em alguns casos, pode ser que algumas atitudes e comportamentos do líder estejam contribuindo para inibir o time. Alguns chegam a usar expressões do tipo: “Eu não vou falar, não adianta“. ” Pra quê falar, não vai servir pra nada, só desgasta...”

Se o líder fala demais, não passa a palavra a todos, se toma decisões sozinho, ou com apenas alguns do grupo, se não sabe fazer perguntas com habilidade… atitudes como essas contribuem para desestimular o time e deixar a todos inseguros.

Um líder não pode ser vaidoso, nem apontador de erros. Uma mudança simples e que pode ajudar o time a se expressar é se incluir quando falar algo (especialmente quando for um erro). Trocar a palavra “EU” por “NÓS” faz uma grande diferença.

Se o líder é muito rápido em construir críticas sobre seus liderados, e não aprendeu a elogiar, isso com certeza contribuirá para que o time fique em silêncio. E aqui estamos falando do silêncio negativo, daquele que está carregado de insegurança e medo, e que não contribui em nada para resultados positivos.

Quem dá o tom é a liderança. Então, como líder, questione-se:

  1. Encorajo os meus liderados a discordar de mim, isto é, a expressar pontos de vista diferentes?
  2. Reconheço a coragem da discordância, quando observo em um liderado?
  3. Sou capaz de questionar minhas próprias decisões passadas, para mostrar aos meus liderados que a análise crítica e construtiva faz parte do processo de melhoria e desenvolvimento?

Conclusão

Há muitas cenas em House of Cards que expressam o poder do silêncio, em contextos positivos e negativos. Claire é a maior especialista em usá-lo, mas Frank Underwood também o utiliza com habilidade. É uma série excelente, e vale a pena ser vista e revista.

Que este artigo o ajude a aprender (ou a reforçar) a importância do silêncio e, principalmente, de usá-lo com habilidade e maestria.


Compartilhe