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Crítica | Um Lugar Silencioso mostra que filmes de terror não são apenas lugares assombrados

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A premissa é simples: uma família luta para sobreviver em um mundo invadido por monstros com audição hiperdesenvolvida. No entanto, mais importante do que a história em si é a maneira pela qual ela é contada.

Quando nos deparamos com a família Abbot, eles já sabem que devem fazer o máximo de silêncio possível. Andam da sua casa na fazenda até o mercado pisando sobre uma trilha de areia, caminham nas pontas dos pés e utilizam linguagem de sinais para se comunicar. O menor dos ruídos pode atrair a ameaça que já acabou com o resto das pessoas que moravam por ali.

O diretor é simples e claro nas cenas: Não foi necessário ter a música no fundo o tempo todo para trazer o suspense. O mistério não é dado logo de cara, o que te faz entrar e entender melhor o contexto, deixando o telespectador mais ansioso e mais concentrado na trama, assim acabamos por sentir uma empatia muito grande pela família. Com cenas angustiantes, como não fazer barulho enquanto respira, andar tão lentamente e cuidadosamente; cenas de trabalho de parto sem fazer nenhum pio (o trailer mostra um pouco desta cena). E o caso mais agonizante, o do pequeno prego.

Visualmente, o ambiente escuro, típico de filmes de terror, as luzes vermelhas acessas quando algum ataque é possível de acontecer, o silêncio. Todos esses tópicos e a direção do John Krasinski trazem um sentimento diferente de todos os filmes de terror.Um Lugar Silencioso : Foto John Krasinski, Noah Jupe

Trasinski prende o público pela maneira de como são feitos os jumps scare e pela forma como a linha dramática e parental, do roteiro é guiada em sequências onde temos de tudo: encontros, brigas, tragédias, momentos de diversão, romance e amor. A sobrevivência da família e a forma como cada personagem vê o mundo silencioso e aterrorizante; e como isso tudo é colocado na tela, seja nas interpretações e na forma como usam a linguagem de sinais, começando dos gestos rápidos, intermediando para os gestos mais longos e chegando aos mais complexos. Não posso deixar de comentar sobre a atriz mirim Millicent Simmonds. Na qual interpreta Regan,  uma garota surda. Quando o filme se volta para a perspectiva da personagem, nenhum som é apresentado, nada. Sentimos o que a Regan passa por não escutar o que está ao seu redor, nos causando mais apreensão e empatia ao ponto de sair gritando durante a sessão para ajudar a garota.

Além de interpretar Lee, o pai, e de assinar o roteiro ao lado de Bryan Woods e Scott Beck, o ator John Krasinski ocupa a cadeira de diretor pela segunda vez em sua carreira (a primeira havia sido na comédia Família Hollar).  A pouca experiência não é sentida em momento algum. Krasinski ocupa o papel com segurança e propriedade pelas convenções do suspense em seu novo longa-metragem.

Falando em atuações Krasinski protagonizando o longa ao lado de sua esposa, Emily Blunt, os dois estão ótimos e as crianças Marcus (Noah Jupe) e Regan (Millicent Simmonds)  também têm boas atuações, indo além do papel de coadjuvantes. São os filhos que completam o cenário de desespero, pois não há nada mais pavoroso do que imaginar que seu filho está em risco. E isso é o que eles vivem todos os dias.

Um Lugar Silencioso mostra que o gênero de terror não são apenas os filmes com fotografia escura, música tensa no fundo ou até mesmo jumps scare, essa categoria pode sim falar sobre algo importante de maneira diferenciada. Esse filme pode falar pouco, mas diz muito nas entrelinhas e nos mostra o poder do silêncio.

Nota de 0 à 5: 5

Curiosidades:

  • Apenas alguns dias em cartaz, o filme  já foi aprovado por crítica e público – apresentando uma das melhores estreias de terror dos últimos dez anos.
  • Em entrevista para o portal Fandango, os roteiristas Bryan Woods e Scott Beck não descartam a possibilidade de uma continuação. Inclusive, parecem estar interessados em mostrar outras pessoas naquela realidade, presas num mundo onde qualquer barulho pode ser fatal, como acontece com a família Abbott:

“Existem também várias ideias descartadas que estão em algum arquivo no nosso computador. Então, certamente, podemos contar várias históras. No final do dia, o importante é descobrir quais serão os personagens e o que esta situação traz para a dinâmica deles”. Diz o roteirista Scott Beck.

  • E se você notou alguma semelhança de Um Lugar Silencioso com um dos filmes da franquia Cloverfield, não é uma mera coincidência. Os longas fariam parte do mesmo universo cinematográfico. Mas com o sucesso e algumas diferenciações, a Paramount notou que a obra dirigida por Krasinski completa por si só.

Confiram o trailer do filme:

 


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Amante da sétima arte. A garota levemente viciada em séries. Estudante de Jornalismo. Série favorita: Game of Thrones/ Penny Dreadful/ This is Us ( não consigo escolher). Série que nunca vi: The Walking Dead. Série que tenho vontade de assistir e ainda não tive a oportunidade: Freaks and Geeks.