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CRÍTICA | Segunda Temporada de ‘Fleabag’ é arrumada, compacta e perfeita

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CRÍTICA | Segunda Temporada de ‘Fleabag’ é arrumada, compacta e perfeita
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As duas temporadas da série estão disponíveis na Amazon Prime Video.

A primeira temporada de “Fleabag” foi um excelente trabalho de comédia que confirmou o talento de Phoebe Waller-Bridge na frente e atrás das câmeras. A sequência da história da personagem destruída e abeira do abismo consegue ser ainda melhor que a sua temporada de estréia.

Quase tudo era bom nos seis episódios de Fleabag que apareceram na Amazon Prime Video em 2016. A série tem a capacidade de encontrar humor contorcido em vidas completamente sofríveis, deprimidas e disfuncionais. A nossa heroína continua sendo uma pessoa sensual, ferrada e sempre prestes a colapsar. A segunda temporada nos mostra que umedecida pela pessoa certa, Fleabag pode se mostrar uma pessoa sensível, vunerável e amável. Waller-Bridge fala de forma constante olhando para a câmera, e faz da forma mais eficaz já vista.

O que a segunda temporada trás de novo é a profundidade da quebra da quarta parede. O que poderia ser apenas um conceito divertido e engraçado ganha profundidade dramática quando o homem da vida da personagem começa a notar que ele está murmurando coisas e virando o rosto. Pela primeira vez em toda a série, Fleabag está realmente sendo vista e compreendida por outra pessoa.

O grande problema é que esse homem usa batina. O que nos leva à mais uma espetacular adição a série: o padre. Andrew Scott trouxe para a série um padre que mostra ser um homem religioso, mas que bebe muito – e que não recebe um nome, é apenas chamada de “Padre” – e fala muitos palavrões; um homem que mostra falhas, um homem que não nega ter desejos, ou seja, apenas uma pessoa normal.

A relação que se desenvolve entre Fleabag e o Padre possui uma enorme tensão sexual, e que nos faz perguntar constantemente: eles vão fazer ou não? O personagem é carismático e muito bem interpretado. Gostamos dele desde a sua primeira introdução, em um jantar onde o pai de Fleabag (Bill Paterson) anuncia que irá se casar com a madrasta de suas filhas, brilhantemente interpretada por Olivia Colman. Mas o par romântico de Fleabag serve para nos mostrar o quão difícil é crescer, se mostar e se revelar verdadeiramente para outras pessoas. O coração da temporada reside nesses tipos de momentos entre os dois. Waller-Bridge e Scott têm uma química tão linda que você torce para que eles se tornem um casal de alguma forma, mesmo que todo esse voto de celibato pareça um obstáculo bastante intransponível.

A segunda temporada mostra muito sobre a irmã de Fleabag, Claire (Sian Clifford), e o descongelamento da sua relação com a irmã. As duas irmãs continuam sendo pessoas completamente diferentes que sempre cairão em direções opostas. Fleabag precisa controlar os seus impulsos e ser mais responsável, enquanto Claire precisa tomar coragem e se libertar das coisas que a deixam para baixo. Sian Clifford faz um trabalho incrível mostrando o quanto Claire está ferida, enquanto deixa a suavidade da personagem aparecer em meio a tanta complexidade.

Todo o elenco é incrível, e ganhou ainda mais peso com as adições de Fiona Shaw e Kristin Scott Thomas qua aparecem em personagens coadjuvantes. Há uma incrível comédia física aqui – especialmente no episódio três – que nos mostra o quanto este elenco é versátil e poderoso. A naturalidade com que Olivia Colman diz “me desculpe, mas se você já teve um aborto espontâneo, você poderia levá-lo para a cozinha, por favor?” é inacreditável de tão bom.

Onde a primeira temporada terminou em uma nota chocante e triste que revelou a profundidade da culpa de Fleabag, a segunda termina em uma comovente forma melancólica, e sinaliza que pode haver alguma esperança para Fleabag. A série termina com Fleabag nos dando adeus e nos pedindo para ficar. Ela precisa seguir em frente com sua vida; ela precisa seguir em frente com seus defeitos, desejos, culpa e medo. Por mais confusa que nossa heroína seja, a segunda temporada de Fleabag é compacta, arrumada e perfeita.


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21. Estudante de Ciências Sociais. Apaixonado por música, cinema e literatura russa.