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“Tranquility Base Hotel e Casino”: um álbum que nasceu para ser incompreendido

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I just wanted to be one of The Strokes
Now look at the mess you made me make

Ficção científica. Tecnologia. Política. Serge Gainsboroug. David Bowie. Leonard Cohen. Nick Cave. Father John Misty. Beach Boys. Clube da Esquina. Jazz. Space pop. Lounge pop. Você certamente nunca esperou que todas estas palavras estivessem associadas a um disco do Arctic Monkeys. Mas Tranquility Base Hotel e Casino está entre nós para mostrar que o quarteto britânico está disposto a subverter tudo o que achamos dele.

Talvez para quem vem acompanhando os caminhos percorridos por Alex Turner nos últimos cinco anos, a sonoridade imprimida no sexto álbum da banda não é exatamente uma surpresa – especialmente para os ouvintes de seu projeto The Last Shadow Puppets. Mas para a grande maioria, o álbum não é nada do que se esperava, um choque potencializado pela decisão ousada de não divulgar nenhum single antes do lançamento do disco. Ouvindo-o agora, é possível entender que se trata de uma decisão completamente acertada. Na minha crítica do AM escrevi que os singles escolhidos podiam causar uma impressão errônea sobre o som do álbum. O mesmo não acontece aqui, e o por quê é muito lógico: esse é um disco que foi pensado para não ser comercial.

Mais do que isso, Tranquility Base soa como um disco conceitual, não apenas pelos temas gerais que percorrem suas letras (mais atuais do que as anteriores da banda jamais poderiam ser, concentradas em seus retratos da juventude e de amores partidos), mas especialmente pelas ligações que ocorrem entre as músicas, fluindo de uma para outra, especialmente na primeira metade do álbum. Quase como uma suíte de rock progressivo. Seria impossível escolher uma dentre as onze aqui para servir de hit – ainda que a glamourosa Four Out of Five pudesse ser uma escolha previsível. Mas mesmo ela passa longe de soar como os singles dos álbuns anteriores.

Não é difícil ver por que muitos fãs vão se horrorizar com esse álbum. As guitarras que marcavam o som da banda agora são relegadas ao segundo plano, enquanto piano e sintetizadores dominam os holofotes. Cortesia de Alex Turner, que assume múltiplas funções no decorrer do álbum. À primeira vista o álbum pode parecer um projeto solo do vocalista (e não posso negar que ver que ele está listado como o baixista da maioria das músicas no lugar de Nick O’Malley me causa um certo incômodo), mas no fim das contas é um erro ignorar a participação ativa dos demais membros na construção do som e da atmosfera completamente distintas desse álbum.

Há muitas bandas que falham ao realizar mudanças drásticas na sua sonoridade. O Arctic nunca foi esse tipo de banda. Ao longo da minha cobertura da sua discografia tenho destacado não apenas a coragem como também a habilidade desses músicos em se reinventar e incrementar novas influências e experimentações ao seu som. Não é diferente aqui em Tranquility Base, mas as apostas são mais altas e o risco é maior. Não há dúvidas de que muitos fãs mais saudosistas do som mais roqueiro dos primeiros discos detestarão este álbum, ou até mesmo os apreciadores do som geral dos três discos seguintes; quiçá deixando de ouvir a banda.

 

O engraçado é que não há garantia nenhuma de que eles investirão num som parecido para seus vindouros álbuns; e isso, no fim das contas, é uma coisa muito boa. Mas por ora, por que não desfrutar os vocais a la Bowie em Star Treatment? A instrumentação rica no melhor estilo Beach Boys de faixas como The World’s First Ever Monster Truck Front Flip (ao menos a criatividade de Turner para os nomes de suas músicas não mudou nem um pouco)? A psicodelia de Golden Trunks She Looks Like Fun? Por que não buscar abrir a cabeça para novas possibilidades? Afinal de contas que tedioso seria uma banda presa ao mesmo som repetidas e repetidas vezes.

Guardadas as devidas proporções, Tranquility Base Hotel e Casino está para o Arctic Monkeys como o Pet Sounds esteve para o Beach Boys e Kid A esteve para o Radiohead: um álbum que subverte o modelo de sucesso que a banda poderia seguir após a aclamação obtida e que se desafia a ser uma obra que resistirá ao teste do tempo. Para este que vos fala, a cada audição se desnuda mais uma camada que revela a genialidade deste disco.

No fim das contas, Tranquility Base foi pensado para ser divisivo e polêmico; mas certamente será impossível ficar indiferente a ele, para o bem ou para o mal.

 

Faixas favoritas: Golden Trunks; Four Out of Five; The Ultracheese.


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