Após 98 anos, a categoria de Melhor Filme do Oscar precisa ser repensada e reformulada para voltar a refletir verdadeiramente a excelência cinematográfica. Desde a primeira edição da cerimônia, em 1929, essa é a premiação mais cobiçada e respeitada entre os profissionais do cinema e o público, com obras inesquecíveis como Casablanca, O Poderoso Chefão e A Lista de Schindler eternizadas por sua importância cultural e qualidade artística. Contudo, ao longo das décadas, uma grande parcela dos vencedores parece mais um reflexo do momento histórico, da indústria ou do consenso seguro do que uma homenagem a filmes que realmente definiram a arte de fazer cinema.
Os votos para o prêmio de Melhor Filme são dados pelos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que representa profissionais da indústria, mas o perfil dos eleitores demonstra uma clara preferência por dramas considerados “prestigiosos”, seja pela abordagem de temas sociais como racismo, política e injustiça, seja por adaptações literárias consagradas. Por outro lado, gêneros como comédia, terror, ação e animação permanecem sub-representados, mesmo quando apresentam inovações técnicas e enorme impacto cultural. Só recentemente passou a ser exigido que os votantes assistam a todos os indicados para votar, uma medida básica que demorou a ser adotada.
Exemplos históricos deixam evidente essa inclinação: Spotlight venceu Mad Max: Estrada da Fúria, Guerra ao Terror superou Avatar, e Os Eleitos derrotou E.T. – o Extraterrestre. Clássicos do gênero como Matrix, De Volta para o Futuro, Psicose, O Iluminado, A Viagem de Chihiro e Toy Story sequer receberam indicações. Mesmo em dramas, as escolhas costumam priorizar o “seguro”, evitando filmes ousados ou polarizadores, como ocorreu quando Shakespeare Apaixonado venceu o resenhado O Resgate do Soldado Ryan, ou Crash levou a melhor sobre Brokeback Mountain. Forrest Gump foi premiado em detrimento de Pulp Fiction e Um Sonho de Liberdade, deixando no ar a sensação de consenso tímido em vez de reconhecimento apaixonado.
A Academia já realizou algumas mudanças em sua trajetória, mas nenhuma atacou a raiz do problema. Na primeira cerimônia de 1929, existiam duas categorias top separadas: “Filme Extraordinário” e “Filme Único e Artístico”, tentando honrar lado a lado popularidade e inovação estética. Porém, logo na segunda edição, esses prêmios foram unificados em apenas Melhor Filme, resultando numa identidade confusa e controversa. Em 2010, após críticas públicas a exclusões notáveis como Batman: O Cavaleiro das Trevas e WALL-E, o número de indicados foi ampliado de 5 para 10, com a intenção de incluir blockbusters e aumentar a audiência da cerimônia, mas isso acabou diluindo o prestígio da categoria e pouco mudou em relação ao viés de gênero e perfil das vitórias.
Outra tentativa de modernização foi a implementação, em 2020, de padrões de inclusão e diversidade para elenco e equipes por trás das câmeras – avanço importante, porém insuficiente para resolver o problema estrutural: o prêmio de Melhor Filme continua sem uma definição clara do que deve premiar. Isso gera resultados subjetivos, que seguem refletindo os gostos majoritariamente conservadores da votação.
Para consertar de fato essa situação, o primeiro passo é a Academia estabelecer critérios objetivos para o que define o “melhor” filme: se será aquele com maior inovação artística, impacto cultural, sucesso popular, excelência técnica ou uma combinação desses aspectos. Um padrão claro tornando transparente o motivo da vitória evitaria decisões arbitrárias ou escolhas baseadas apenas no consenso seguro. O vencedor teria que atender integralmente a esses critérios para justificar seu título com peso.
Além disso, o sistema de votação precisa ser reformulado. Atualmente, o método preferencial usado para Melhor Filme – onde os votantes ranqueiam suas escolhas e os votos dos últimos colocados vão sendo redistribuídos até alguém ultrapassar 50%, favorece filmes “medianos” que agradam a todos um pouco em detrimento de obras que despertam paixão genuína em um segmento menor do eleitorado. Voltar a um voto direto majoritário premiaria as produções que mais emocionam e dividem opiniões, em vez das escolhas “seguertas” que sobrevivem ao processo de eliminação.
Por fim, é essencial continuar diversificando e renovando o corpo da Academia. A média de idade dos eleitores era 63 anos, com apenas 14% abaixo dos 50 anos, um reflexo de um grupo influenciado por determinadas preferências. Apesar de recentes esforços para incluir mais mulheres e pessoas de diferentes etnias, é fundamental aprofundar essa diversidade, incorporando mais jovens e profissionais de variadas áreas criativas. Só assim a Academia deixará de ser acusada de estar “desconectada” da indústria atual e do público contemporâneo, reduzindo enviesamentos históricos e valorizando a pluralidade do cinema.
Sem essas mudanças estruturais, o Oscar continuará premiando filmes seguros e esquecíveis enquanto ignora verdadeiros ícones que moldam a cultura e a arte. O prêmio de Melhor Filme merece um propósito claro e corajoso que reflita o melhor do cinema em todas as suas formas. Depois de quase um século, chegou a hora de a Academia olhar para frente e garantir que o “melhor filme” seja uma celebração transparente, justa e vibrante da criatividade e do impacto cinematográfico.
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