A guerra do streaming trouxe consigo uma série de mudanças na forma como consumimos entretenimento, e a maior vítima desse conflito pode ser o próprio conceito de “originalidade” que deu início a essa nova era.
Em janeiro de 2007, a Netflix revolucionou o mercado ao lançar sua plataforma de streaming, expandindo as opções de aluguel de DVDs para o consumo imediato de conteúdo online. Com apenas 1.000 filmes disponíveis para streaming, em comparação com mais de 70.000 em DVD, a Netflix rapidamente se tornou um protagonista do setor. Em fevereiro de 2013, essa transformação atingiu um novo patamar com o lançamento de “House of Cards”, sua primeira série original. Este drama político, estrelado por Kevin Spacey e Robin Wright, demonstrou que a Netflix não só poderia adquirir conteúdos de sucesso, mas também criar produções próprias.
Nos anos seguintes, surgiram várias séries inovadoras que desafiaram as normas da indústria, como “Orange is the New Black”, “Sense8”, e “BoJack Horseman”. No entanto, esse sucesso atraiu a atenção de outras estúdios e redes, que tentaram imitar o modelo da Netflix, iniciando assim a chamada “guerra do streaming”. Este cenário competitivo gerou consequências significativas, como a diluição do significado de “original”, que passou a se referir mais a conteúdos exclusivos do que a criações verdadeiramente inovadoras.
A partir de 2019, com o lançamento do Disney+, a situação se intensificou. As plataformas de streaming tornaram-se cada vez mais avessas ao risco, priorizando histórias familiares e marcas conhecidas em vez de novas narrativas. Além disso, houve um crescimento do fenômeno dos “filmes de marca”, onde o foco é menos sobre personagens e enredos e mais sobre produtos reconhecíveis.
Atualmente, muitos cineastas sentem que suas propostas precisam estar ligadas a propriedades intelectuais (IPs) existentes para serem consideradas. Isso levanta a questão: onde ficam os filmes originais que não possuem estrelas chamativas para atraírem atenção? O que acontece com histórias genuinamente inovadoras que não podem ser facilmente quantificadas?
Apesar de ainda existirem boas produções exclusivas nas plataformas de streaming, muitos criadores afirmam que atualmente há uma predominância em projetos que não desafiam a norma. Para mudar esse cenário, é vital que os consumidores exijam histórias originais e criativas, recusando-se a aceitar apenas o que lhes é oferecido. A resistência ao conceito de “original” como simplesmente “exclusivo” é essencial para resgatar o verdadeiro valor da criatividade no entretenimento.
Agora mais do que nunca, é fundamental que os fãs se manifestem por conteúdos de qualidade, desafiando a percepção de que o que é seguro e já conhecido é necessariamente o que deve ser produzido. O futuro do cinema e da televisão depende da nossa disposição de lutar por narrativas autênticas.
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