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“Humbug”: o divisor de águas do Arctic Monkeys

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Monótono. Chato. Sonolento. Essas são algumas das palavras que muitos dos fãs do Arctic Monkeys usaram para definir Humbug quando do seu lançamento. Não era para menos. No terceiro disco da banda as influências do post punk revival e do garage rock foram drasticamente reduzidas em favor de um considerável investimento no rock psicodélico e no desert rock de bandas como o Queens of Stone Age (cujo líder, Josh Homme, se revela uma grande influência aqui, além de participar em algumas das músicas). A agressividade sonora dos dois primeiros álbuns ficou para trás. Era tempo de mudanças, aceitasse-se ou não.

Humbug é o verdadeiro atestado de uma banda que não está disposta a permanecer no lugar-comum. Embora Favourite Worst Nightmare já sinalizasse algumas das mudanças na sonoridade da banda, nem mesmo ele podia preparar os fãs para o que estava por vir, tanto em termos musicais quanto líricos. Há um humor sombrio aqui que não se fazia presente nos dois primeiros álbuns, bem como influências cada vez mais claras do rock dos anos 60 e70; uma produção substancialmente diferente que reforça os aspectos experimentais e psicodélicos introduzidos; e uma banda que ainda é o retrato de uma geração, mas que não se prende a isso.

Claro, não é um disco perfeito. Secret Door ainda permanece como uma das faixas mais fracas já escritas por eles, ao passo que a presença de Pretty Visitors entre as duas mais longas e complexas peças do disco quebra um pouco do ritmo estabelecido até então (o qual não se equipara ao de Favourite…). Porém, é um disco que sabe ousar e incrementar quando quer, apresentando uma produção muito mais rica do que a dos antecessores. Exemplo disso é a presença de mais teclados, seja o mellotron na deliciosa Dangerous Animals ou o magnífico órgão na já referida Pretty Visitors (talvez a única faixa que remonte ao estilo dos álbuns passados, com direito a uma performance enérgica de Matt Helders na bateria – ainda que no fim das contas ela também concilie a nova sonoridade introduzida neste álbum). E se mencionei Josh Homme aqui antes, não apenas ele é um nome-chave na produção do álbum juntamente com o colaborador de longa data James Ford, como ainda oferece suporte nos vocais de apoio e é o responsável pelo glockenspiel  tocado na fabulosa e etérea faixa de encerramento, The Jeweller’s Hands.

O humor sombrio a que me referi anteriormente é expresso principalmente nos vocais de Alex Turner, que entrega uma performance consideravelmente mais madura e soturna do que em Whatever… Favourite…. Ao passo que suas guitarras e Jamie Cook são os principais instrumentos que atestam a nova sonoridade do álbum, variando de um estilo meio “James Bond” em My Propeller para as influências do QOSTA em Fire and Thud ou a completa psicodelia de Dance Little Liar (minha faixa favorita da banda). E Nick O’Malley, que já tinha se destacado no álbum anterior, aqui revela um trabalho igualmente digno, mesmo permanecendo mais na base ou na cozinha com Helders. Basta ver as linhas de baixo que ele oferece em Crying Lightning ou Potion Approaching para ver o quão ele é essencial para o som da banda.

Embora controverso e responsável por alienar uma boa parcela dos fãs (algo que não seria remediado com as sonoridades exploradas nos discos seguintes), Humbug ainda permanece como um álbum definidor do que o Arctic Monkeys viria a ser, um atestado da incrível capacidade da banda de se reinventar – e de justamente por conta disso permanecer na vanguarda do cenário indie, por mais cômodo e bem-sucedido que tivesse sido permanecer na zona de conforto dos seus álbuns anteriores. Uma obra imperfeita, mas ainda assim grandiosa em seu minimalismo.

Faixas favoritas: Potion Approaching, Dance Little Liar, The Jeweller’s Hands

 


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