**Hollywood 90028: Uma Análise de um Clássico Subestimado**
Hollywood 90028 é um filme de 1973 que teve um caminho complicado até chegar às telonas. Embora filmado e certificado pela MPAA naquele ano, sua estreia nos cinemas dos EUA só ocorreu três anos depois. Após algumas exibições esporádicas na década de 70, o filme parecia estar perdido no tempo. Contudo, a Grindhouse Releasing fez um grande trabalho ao remasterizar Hollywood 90028 para 4K em 2023, trazendo à tona uma obra importante e provocadora.
O longa segue Mark, interpretado por Christopher Augustine, um cameraman envolvido na indústria pornô de Los Angeles. Ele vive uma vida isolada, marcada por interações superficiais e um constante sentimento de solidão. Na maior parte de sua jornada, é a narrativa de um homem cujas emoções e experiências são amplamente centradas em sua visão distorcida das mulheres. A dinâmica muda quando Mark se apaixona por Michelle (Jeannette Dilger), uma modelo que ele fotografa, levando-o a ações extremas por sua atenção.
Uma das características mais intrigantes de Hollywood 90028 é sua visão antecipada sobre questões de gênero e o papel das mulheres na sociedade. A diretora Christina Hornisher, em seu único longa-metragem, consegue refletir discussões que seriam relevantes décadas depois, como as ligadas ao movimento incel. O filme faz uma crítica penetrante aos papéis de gênero e à exploração das mulheres em Hollywood, algo que se destaca, especialmente por ser conduzido por uma mulher.
Mark é um personagem carregado de misoginia, mas essa atitude não é explicitada de forma direta. O filme mostra sua interação com mulheres com um filtro sexual, revelando sua visão distorcida. Apesar de ele aparentar ser sociável, com piadas e perguntas, o público já compreende suas verdadeiras intenções, que se alinham à ideologia do “nice guy”, onde a misoginia se esconde sob uma fachada amigável.
Uma das belezas do filme é a maneira como as mulheres são apresentadas. As personagens femininas recebem tempo e espaço para expressar suas emoções e motivação para adentrar no lado obscuro de Los Angeles, muito antes do movimento #MeToo trazer esses temas à luz pública. Isso contrasta fortemente com produções contemporâneas que frequentemente marginalizam as vozes femininas.
Hollywood 90028 também se distancia de obras como “A Casa que Jack Construiu” de Lars Von Trier, que retrata a violência contra mulheres de maneira grotesca. Este filme, por outro lado, é mais sensível, e sua cena mais incomodativa não envolve uma mulher. O foco está na voz das mulheres que Mark tenta manipular, fazendo com que o público sinta indiferença por ele.
No entanto, nem tudo funciona perfeitamente. A falta de profundidade do personagem principal pode ser um ponto negativo. Além de algumas breves referências ao seu passado e relações amorosas, o filme pode deixar o público distante de Mark, tornando a experiência lenta mesmo nos seus 90 minutos. Isso acaba transformando Hollywood 90028 em uma obra que se torna mais interessante para análises do que para consumo passivo.
O filme está programado para ser exibido no Festival de Cinema Final Girls em Berlim no dia 7 de março de 2025, às 19h. Essa será uma oportunidade valiosa para redescobrir uma obra que, apesar de suas falhas, é rica em significados e continua relevante nos debates contemporâneos sobre gênero e poder na indústria do entretenimento.
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