Highguard: o que deu errado no shooter que perdeu o apoio da Tencent poucas semanas após o lançamento
Highguard surgiu como uma promessa no competitivo universo dos shooters multiplayer, mas teve sua trajetória marcada por reveses que culminaram no corte de financiamento da Tencent apenas duas semanas após sua estreia. O cenário que rodeia o título, desenvolvido pela Wildlight Entertainment, revela uma série de desafios internos e escolhas estratégicas que influenciaram diretamente o destino do jogo e do estúdio.
Wildlight e a queda do financiamento da Tencent
De acordo com um detalhado levantamento feito pelo jornalista Jason Schreier, da Bloomberg, o estúdio Wildlight, responsável por Highguard, convocou seus colaboradores para uma reunião geral em 11 de fevereiro – pouco mais de duas semanas após o lançamento do jogo, que ocorreu em 26 de janeiro. Durante o encontro, foi anunciado o corte de grande parte da equipe, já que a Tencent, parceira e financiadora do projeto, retirou seu investimento diante do desempenho abaixo do esperado.
Embora o estúdio tenha confirmado oficialmente os cortes, não houve uma divulgação clara do número exato de demitidos, mas fontes indicam que hoje menos de 20 pessoas permanecem no time. Curiosamente, a relação da Tencent com Wildlight e seu papel financeiro no desenvolvimento de Highguard foi minimizada publicamente até dias após os cortes, quando a participação da gigante chinesa foi oficialmente confirmada.
O legado da ambição: origem e complexidade do Highguard
A gênese de Highguard remonta a uma proposta focada no gênero survival shooter, buscando inspiração em jogos como Rust. Esse estilo de gameplay, que enfatiza elementos como coleta de recursos, construção e elementos táticos de sobrevivência, guiou o desenvolvimento por dois anos. Entretanto, diante da constatação de que o conceito não vinha se encaixando no mercado, a equipe decidiu mudar o rumo do projeto, incorporando elementos de FPS competitivo e base raiding. Essa decisão resultou numa mistura complexa e carregada de mecânicas distintas.
A convivência de sistemas como a mineração da moeda Vesper, o uso de equipamentos upgradeáveis, armas de cerco e poderes de heróis gerou um núcleo de jogo denso e difícil de assimilar, especialmente para jogadores casuais. Fascinante é que esse emaranhado de ideias parece ter se originado justamente da evolução e metamorfose do jogo em seu desenvolvimento, onde muitas das funções do survival shooter foram reaproveitadas, sem que a experiência final tivesse uma coesão natural.
Testes e as falhas na percepção do público
Apesar de ser exaustivamente testado internamente e por grupos externos selecionados, o jogo não recebeu a crítica que merecia antes do lançamento. A principal falha apontada nas análises internas se deve ao ambiente controlado de testes: membros da equipe já conheciam profundamente o jogo e os testes externos eram feitos com grupos restritos que usavam comunicação por voz, algo não tão comum nas jogatinas casuais e que pode alterar significativamente a percepção do gameplay.
Wildlight optou por não realizar testes abertos, desejando repetir o modelo surpresa e de lançamento simultâneo de Apex Legends, jogo que também contou com ex-integrantes da Respawn e influenciou diretamente a concepção de Highguard. Essa decisão, no entanto, pode ter gerado uma lacuna entre o que a equipe considerava como ideal e a recepção real do público, que encontrou um título difícil de entender e mergulhar logo no primeiro contato.
O peso da confiança e o impacto dos concorrentes
O time carregava nas costas uma confiança fundamentada na experiência prévia com sucesso de Apex Legends, o que gerou uma dose significativa de otimismo quanto à recepção do novo shooter. Esse senso de segurança, descrito internamente como “hubris”, fez com que críticas iniciais fossem vistas com ceticismo, e a recomendação era manter sigilo sobre as dificuldades para que o jogo “falasse por si mesmo”.
Entretanto, Highguard estreou num momento atípico do mercado, com o lançamento do shooter competitivo Marathon, além da ressurreição do Overwatch, dois títulos de peso que mobilizaram audiências e mantiveram a concorrência intensificada. Em meio a essa arena já disputada e com uma equipe reduzida, a perspectiva de recuperação de Highguard parece incerta, ainda que a Wildlight insista em adicionar conteúdo novo para tentar reanimar a base de jogadores.
Novas estratégias para tentar reanimar o jogo
Com menos de 20 pessoas na equipe, a Wildlight tem buscado refinar e simplificar a experiência de Highguard, introduzindo modos de jogo que deixem de lado a complexidade inicial. Um exemplo é o novo modo Raid Rush, lançado para tentar atrair jogadores com uma proposta mais direta e acessível.
No entanto, a batalha para encontrar espaço em um mercado dominado por pesos pesados e jogadores cada vez mais exigentes continua sendo uma tarefa árdua. O futuro de Highguard dependerá muito de quão eficaz será essa nova abordagem e da capacidade do estúdio em tracionar e reter um público em meio a um cenário altamente competitivo.
Highguard simboliza, portanto, não apenas o risco inerente de trazer algo novo para gêneros já saturados, mas também como decisões internas e estratégias de lançamento podem ser decisivas para a sustentabilidade de um projeto ambicioso. A história recente do jogo serve como uma aula sobre a importância de alinhar expectativa, teste aberto e flexibilidade diante do mercado.
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