A morte repentina de Matthew Perry em 2023, decorrente dos efeitos agudos da cetamina e de afogamento acidental, deixou uma ferida aberta no público que cresceu rindo de suas piadas pontuais como Chandler Bing. Diante de desfechos trágicos de figuras públicas queridas, a indústria do streaming costuma produzir documentários apressados e sensacionalistas, que exploram o choque e a dor sem capturar a essência da pessoa retratada. Felizmente, a minissérie em três episódios The One About Matthew Perry segue uma direção totalmente oposta, construindo um retrato honesto, doloroso e comovente de um homem que lutou incansavelmente contra suas próprias sombras.
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A voz fundamental da família
O grande diferencial do documentário dirigido pela vencedora do Emmy Mary Robertson está na presença de quem realmente conhecia o ator para além da fama. Pela primeira vez em público, sua meia-irmã Mia Perry Bowick quebrou o silêncio para compartilhar suas vivências ao lado de Matthew. O laço entre os dois era tão profundo que ela decidiu se formar como psicoterapeuta para tentar compreender o mecanismo das dependências que consumiam a vida do irmão.
Mia explica que a produção oferece a chance de as pessoas enxergarem Perry como um ser humano completo, longe de ser reduzido apenas ao personagem icônico da televisão ou ao rótulo simplista de adicto. Sua participação ajuda a desmistificar julgamentos ultrapassados sobre a doença, reforçando que o vício é uma condição médica complexa e não uma escolha moral, postura que o próprio Matthew defendia ferozmente em debates públicos ao longo de sua vida.
Verdades dolorosas e o resgate da leveza
O documentário não suaviza as passagens mais duras da história do artista. Estão presentes os relatos sobre o acidente automobilístico provocado por ele quando viajava com a amiga Marjorie Harris Newman e a dura realidade de que Perry entrava e saía de clínicas de reabilitação enquanto gravava momentos celebrados da TV, como o casamento de Chandler e Monica. Depoimentos de amigos de longa data, como Roger Castillo e David Pressman, relembram também o início descontraído da juventude em Los Angeles, complementados por participações de colegas como Kevin Pollak e Nate Torrence.
Essa preocupação em resgatar o senso de humor genuíno de Matthew foi o grande norte da equipe criativa. Mary Robertson fez questão de balancear as lágrimas com a graça e o magnetismo que Perry sempre irradiou, honrando seu espírito generoso mesmo nos momentos de maior escuridão. O resultado é um produto audiovisual essencial para entender a fragilidade humana e que pode oferecer conforto real para quem enfrenta jornadas semelhantes.

