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CRÍTICA | Game of Thrones: 8ª Temporada

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CRÍTICA | Game of Thrones: 8ª Temporada
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Ainda me lembro da primeira vez em que ouvi falar de Game of Thrones. Era uma matéria numa revista falando da primeira temporada, contando com uma imagem de Daenerys e sua égua prateada. O texto ressaltava que a série, embora fosse de temática medieval e fantástica, tinha um conteúdo mais adulto do que outras sagas de fantasia, como Senhor dos Anéis – altas doses de violência e sexo. Embora o texto tivesse me chamado a atenção na época, ainda demorou-se mais um ano para enfim começar a assistir tanto a série quanto ler os livros, cortesia do meu professor de História na época que passou os arquivos das duas primeiras temporadas e seus exemplares dos livros para mim.

Nascia a partir daí a relação mais forte que já tive com uma saga literária e com uma série de TV. Imergi naquele universo de personagens complexos, reviravoltas chocantes, intrigas políticas e religiosas, magia e muito mais. E não era o único: a cada temporada, Game of Thrones aumentava em escopo e em público, arregimentando legiões de fãs pelo mundo – fossem os que apenas assistiam a série ou os que também buscavam os livros.

E então, algo surpreendente aconteceu: sem mais livros lançados, a série ultrapassou seu próprio final original. O que viesse a partir dali poderia ter ecos e pinceladas do que George R.R. Martin pensava para o final da sua saga, mas em sua grande parte seria ditado pelos showrunners da série, David Benioff e D.B. Weiss. E então a série, unânime em sua aclamação crítica e comercial, transformou-se ainda mais num fenômeno global sem precedentes para a história da TV, mas com uma recepção cada vez mais polarizada.

Por um bom tempo a briga parecia ser entre os leitores dos livros e aqueles que apenas assistiam a série. Os primeiros, acusados de elitistas; os segundos de consumidores de massa sem pensamento crítico para com a obra. Contudo, até mesmo muitos do segundo grupo condenaram fortemente a última temporada de Game of Thrones, encerrada no último domingo, dia 19/05. Prometido como um final à altura de Breaking Bad (série que destronava Game of Thrones nas premiações até seu fim em 2013), acabou recebendo uma enxurrada de críticas negativas que espelham a relação problemática que a série passou a ter com seu público com o passar dos tempos.

O primeiro ponto a ser pensado é em como esse final foi planejado. As seis primeiras temporadas continham cada uma 10 episódios, mas as duas últimas tiveram apenas 7 e 6 episódios respectivamente. A sensação que se tem ao final da série é de um final apressado, feito nas coxas em muitas partes. Se a convergência dos vários personagens, núcleos e tramas que compõem a obra já era timidamente trabalhada a partir da sexta temporada, acentuou-se a uma velocidade absurda e incoerente com o tom que a série adotou nos seus primeiros anos. É evidente como a partir da quinta temporada Game of Thrones se notou muito mais notável por acontecimentos grandiosos e uma produção técnica assombrosa e sem precedentes na história da TV, mas passou a ser criticada pelo subdesenvolvimento de seus personagens e da história em si.

Em nenhum lugar isso é tão evidente como nessa última temporada, que sacrifica todo desenvolvimento dos personagens em prol de construções previsíveis e clichês. Quase ninguém se salva; alguns têm seus bons momentos aqui e ali, mas são mais exceções do que a regra. Não à toa o melhor episódio da temporada é justamente o segundo, A Knight of Seven Kingdons, que aposta nas conversas e relações entre esses personagens com os quais criamos laços ao longo de oito anos antes da grande batalha contra as forças maléficas do temível Rei da Noite (que junto com seu exército de mortos-vivos cria uma representação do mal que apenas torna a série maniqueísta, coisa que nunca deveria ter sido).

Nem mesmo os grandes momentos que pontuaram as temporadas passadas se salvam. A batalha contra o exército dos mortos no terceiro episódio, The Long Night, é prejudicada por uma direção confusa e uma montagem escura que apenas irrita e atrapalha ao invés de nos imergir na batalha noturna. Isso sem contar o seu fim esdrúxulo e que apela para conveniências absurdas de roteiro, transformando o mal que fora construído como uma ameaça absoluta desde a quinta temporada como uma mera ameaça qualquer passível de derrota pelo mais simplista dos meios. The Last of Starks, o episódio seguinte, começa com uma proposta parecida com a de A Knight…, mas se perde completamente na sua segunda metade, apelando para novas conveniências que destroem mais da pouca lógica restante na série (e não, não é porque é uma série de fantasia que deve ser ilógica – é preciso que apresente suas próprias regras e o modo como os roteiros possuem falhas e furos é um sinal de abandono dessas regras em nome das conveniências). E então chegamos ao pavoroso The Bells, que se impressiona pelo escopo e pelo caos apresentado na derradeira batalha contra Cersei Lannister, mostra o quanto essa reta final da série foi mal-planejada ao subitamente transformar Daenerys Targaryen numa tirana com base em poucas e fracas pistas deixadas nos anos anteriores e usa e abusa de outros recursos clichês – como as constantes e irritantes salvações de última hora de Arya Stark.

Dito isso, confesso que me surpreendi ao ver o quanto gostei do último episódio da temporada e da série, The Iron Throne. Mesmo com resoluções simplórias e outras que a princípio não parece ter nada a ver com a proposta da série, o episódio contém vários traços do que pode vir a ser o final dos livros, e talvez isso faça a diferença em sua qualidade – pois é perceptível que conta com elementos sugeridos pelo próprio Martin e não oriundos das cabeças de Benioff e Weiss. Estes, aliás, saem com a imagem completamente manchada, pois não apenas se provaram showrunners medíocres a partir do momento em que a série precisou seguir com as próprias pernas, mas também povoaram e reforçaram elementos acerca dos quais Game of Thrones sempre recebeu críticas – o sexismo sendo o mais gritante dentre eles. Personagens foram reduzidos a criaturas estúpidas e dissonantes dos tons das primeiras temporadas (alô Tyrion), enquanto outros se tornaram quase que completamente inúteis à história (Jon sendo o exemplo mais claro, apesar do papel que assume no último episódio).

Assim, Game of Thrones se encerra em uma nota mais amarga que a agridoce que nos vinha sendo prometida há anos. É até mesmo difícil pensar no que poderia ter colaborado para uma resolução melhor (já que a ausência do material-fonte contribuiu para isso e nesse sentido Martin tem grande parcela de culpa também), mas creio que se as duas últimas temporadas ao menos tivessem a mesma quantidade de episódios das anteriores já suprimiria ao menos parte do problema, já que abriria uma possibilidade de um melhor desenvolvimento. Se não encaro com raiva o final (ao contrário de grande parte do fandom que enxurrou o último episódio de notas baixas), não deixo de me sentir triste que o caminho até esse final se tornou irregular e cada vez mais problemático. Game of Thrones perdeu muitos de seus melhores aspectos, e se há de se juntar ao time das maiores séries de todos os tempos certamente será pelas irrepreensíveis quatro primeiras temporadas e seus valores de produção do que pelo que entregou nos últimos anos.

Agora é alimentar a ingênua esperança de que o Martin lançará os últimos livros planejados e que caso venham a ter os mesmos finais da série, ao menos o caminho até esse final será muito melhor-trabalhado. Como crianças de verão que somos.


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