Ava DuVernay escolheu o palco de encerramento do Festival de Cinema de Nova York para apresentar sua mais recente reflexão sobre os alicerces jurídicos e sociais dos Estados Unidos. Em 14th, a cineasta dá continuidade direta à linha de investigação iniciada no aclamado 13th, trocando o foco da abolição formal da escravidão pelas complexidades e disputas que cercam a Décima Quarta Emenda à Constituição americana.
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Um choque entre o juramento e o poder
A produção abre com uma montagem solene de presidentes históricos prestando o juramento de posse, de Franklin D. Roosevelt e John F. Kennedy a Ronald Reagan, todos comprometidos a preservar, proteger e defender a Carta Magna. O ápice do prólogo atinge Donald Trump ao assumir como 47º presidente, seguido imediatamente por uma entrevista concedida à jornalista Kristen Welker, na qual ele hesita sobre a obrigação de cumprir a Constituição e transfere a responsabilidade para seus advogados.
O documentário estrutura seu argumento ao redor do chamado reinício constitucional promovido pelas 13ª, 14ª e 15ª Emendas logo após o fim da Guerra Civil. DuVernay detalha como esses textos foram cruciais para instituir as bases de uma democracia multirracial, garantindo cidadania por direito de nascimento e igualdade perante a lei para populações historicamente marginalizadas, em especial os afro-americanos recém-libertos.
Ataques aos direitos civis e o fantasma da insurreição
Com riqueza de detalhes históricos, a narrativa recupera as campanhas de violência e as narrativas revisionistas sulistas que tentaram desmantelar essas conquistas no século XIX. O longa traça paralelos evidentes com o cenário contemporâneo, destacando os esforços do governo Trump para anular a cidadania por nascimento por decreto executivo, medida barrada pela Suprema Corte por uma margem estreita de 6 a 3.
A Seção 3 da emenda também ganha os holofotes. O texto proíbe participantes de insurreições contra o Estado de ocuparem cargos públicos, preceito que o documentário utiliza para examinar os eventos de 6 de janeiro de 2021 no Capitólio, o subsequente perdão presidencial aos condenados e a criação de fundos indenizatórios para os envolvidos.
Linguagem didática e elenco de peso
Esteticamente, o longa repete o padrão técnico apurado da diretora, mesclando entrevistas sofisticadas, computação gráfica dinâmica e interlúdios com apresentações de comediantes renomados, como George Carlin, Paul Mooney, Hasan Minhaj e Neal Brennan. As piadas ácidas servem de alívio dramático para uma discussão densa e abertamente pedagógica.
O projeto conta com depoimentos de lideranças políticas e pensadores de diferentes espectros ideológicos, reunindo Stacey Abrams, Jeff Flake, Steve Schmidt, Alexandria Ocasio-Cortez e Carla Hayden, bibliotecária do Congresso destituída durante a gestão republicana. Distribuído pela Netflix, 14th tem estreia marcada para 4 de dezembro de 2026, consolidando-se como um alerta contundente sobre a fragilidade dos direitos democráticos.
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