‘By Design’: A Surreal e Inusitada Comédia de Troca de Corpos Entre Mulher e Cadeira
Corpos trocados no cinema não são novidade, mas o que a nova produção By Design faz é algo totalmente fora do comum: uma mulher troca de corpo com uma cadeira. Sim, você leu certo. Dirigida e escrita por Amanda Kramer, conhecida pelo filme Please Baby Please, essa comédia surreal aposta em um conceito tão estranho quanto original, explorando temas profundos sob uma camada de bizarrice e humor negro.
Enredo Inusitado: A Transformação de Camille em Objeto de Desejo
Juliette Lewis interpreta Camille, uma mulher comum que se apaixona por uma cadeira exclusiva e luxuosa, apelidada de “The Stunner”. O filme nos convida desde o início a perceber essa cadeira de maneira quase antropomórfica, com a narração de Melanie Griffith descrevendo suas qualidades e beleza com um olhar quase humano. Quando a cadeira é vendida para uma outra pessoa, Camille fica devastada, até que ocorre a troca de corpos: a consciência dela fica na cadeira, enquanto o corpo dela vira uma espécie de objeto imóvel, sem consciência.
A partir daí, o filme expande sua bizarrice ao mostrar Olivier (Mamoudou Athie), o novo dono da cadeira, que passa a tratá-la como um objeto de desejo — cheirando, beijando e até lambendo a cadeira. Essa situação absurda dá voz a discussões sobre objetificação, desejo e autonomia, principalmente sob a ótica feminina.
Exploração de Temas Relevantes pela Lente do Surreal
Amanda Kramer brinca com a ideia do quão objetos e pessoas, especialmente mulheres, podem ser desejados e disputados, mas, ao mesmo tempo, negados em sua autonomia real. Camille deseja ser um objeto de beleza como a cadeira, e sua troca corporal literalmente materializa esse desejo. O filme usa esse ponto para discutir as relações de poder, possessividade e a sexualização do corpo feminino de um jeito visualmente e narrativamente incomum.
No entanto, em alguns momentos, o roteiro se torna excessivamente direto, quase didático, por meio da narração que frequentemente segura pela mão o espectador, perdendo um pouco da sutileza que uma abordagem mais sofisticada poderia gerar.
Estilo Visual Minimalista e Atmosfera Teatral
O aspecto visual de By Design é propositalmente simples, com cenários minimalistas, remetendo a um palco teatral, contribuindo para a sensação de uma peça experimental mais do que um filme tradicional. Essa escolha estilística reforça a estranheza da história e dá um tom etéreo às interações entre Camille e seus amigos, Lisa (Samantha Mathis) e Irene (Robin Tunney), que falam de maneira quase artificial, ampliando a sensação de um universo deslocado da realidade comum.
Embora essa estética seja inicialmente interessante, na medida em que o filme avança ela pode cansar o espectador, que começa a sentir que assiste a uma peça filmada e pouco dinâmica, o que prejudica a imersão.
Performances que Valem Destaque em um Contexto Experimental
Juliette Lewis entrega uma performance marcada por sua típica excentricidade, especialmente ao interpretar a Camille vazia quando seu corpo está possuído pela consciência da cadeira, frequentemente sem expressão ou até carregada como um boneco. Samantha Mathis e Robin Tunney, ambas estrelas dos anos 90 que continuam ativos mas raramente recebem papéis centrais, brilham como amigas da protagonista, reforçando uma nostalgia discreta e trazendo uma autenticidade rara sobre mulheres maduras em Hollywood.
Mamoudou Athie se destaca ao abordar seu personagem Olivier com um misto de urbanidade, insegurança e estranheza, conseguindo equilibrar cenas em que flerta com a cadeira de maneira nada sutil e momentos de ciúme patético. A presença do icônico Udo Kier como o excêntrico fabricante da cadeira é a cereja do bolo, marcando uma de suas últimas aparições e somando ao tom fora do comum do filme.
Pontos Fracos e Sensação de Oportunidade Perdida
Apesar de toda sua criatividade, By Design tropeça no desenvolvimento. Com 92 minutos, o filme parece se esticar para caber no tempo cheio, com sequências que poderiam ter mais energia — como um estranho stalker com hábitos de sapateado que, mesmo bizarro, não desperta emoção suficiente. O humor negro é presente, mas se torna repetitivo e a narrativa visual pouco estimulante não ajuda a conter o ritmo arrastado.
A proposta de Amanda Kramer é audaciosa, mas a execução acaba limitando o impacto do filme, que poderia funcionar melhor como um curta-metragem ou até uma peça teatral avant-garde — formatos que combinariam melhor com sua estrutura e estética.
Considerações Finais Sobre By Design
By Design se destaca por lançar uma premissa inovadora na saturada categoria de filmes de troca de corpo, adotando uma abordagem absurda e carregada de simbolismo para lamentar e criticar a objetificação feminina. No entanto, sua narrativa pouco fluída, ritmo lento e estilo visual estático dificultam que o espectador mergulhe verdadeiramente na história.
Quem valoriza filmes experimentais e gosta de propostas que fogem do óbvio pode achar mérito e até diversão no longa, enquanto aqueles que esperam por uma comédia mais dinâmica ou uma crítica sóbria podem se frustrar. Ainda assim, as atuações — especialmente de Lewis, Athie e o elenco coadjuvante — dão valor à experiência, sustentando uma trama que provoca reflexão, mesmo que com certa dificuldade.
By Design não é para todos, mas para quem quer ver cinema diferente, que mistura surrealismo, humor negro e crítica social com um toque bizarro, vale o ingresso — mesmo que o resultado final seja tão estranho quanto a ideia de uma mulher virar uma cadeira.
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