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A verdade sobre The Grudge: crítica injusta ou terror marcante?

A verdade sobre The Grudge: crítica injusta ou terror marcante?
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No início dos anos 2000, Sam Raimi realizou uma jogada interessante ao convencer o diretor japonês Takashi Shimizu, responsável por um dos filmes de terror sobrenatural mais elogiados do Japão, a refazer seu próprio trabalho para o público americano. Assim nasceu a versão americana de Ju-On: The Grudge, simplesmente intitulada The Grudge, produzida sob o selo Ghost House Pictures de Raimi.

O filme se tornou um sucesso financeiro, arrecadando impressionantes 187 milhões de dólares com um orçamento modesto de 10 milhões. No entanto, a recepção crítica foi bastante negativa. Com uma taxa de aprovação de apenas 41% no Rotten Tomatoes, muito abaixo dos 80% da versão original, até o renomado crítico Roger Ebert ficou “boquiaberto”, questionando o porquê de Raimi e sua equipe terem investido nesse projeto. Mas será que os críticos foram injustos com um filme que, de fato, tem muitos méritos?

The Grudge é praticamente uma cópia fiel do original

É raro que diretores refilmem seus próprios filmes, mas quando isso acontece, geralmente há mudanças significativas. John Ford e Alfred Hitchcock são exemplos clássicos de cineastas que revisitaram suas obras com ajustes importantes. No caso de Takashi Shimizu, por outro lado, a decisão foi preservar quase todos os elementos do filme original.

Na maior parte do tempo, o cenário não foi sequer alterado: permanece em Tóquio, e o roteiro apenas insere personagens americanos no contexto. O filme mantém a narrativa não linear, um recurso que desafia o público a juntar as peças da história por conta própria, algo nem sempre comum em produções de terror hollywoodianas.

O enredo gira em torno de Karen Davis, uma estudante americana de serviço social que é designada para cuidar de Emma, uma idosa catatônica em uma casa suburbana onde a cuidadora anterior desapareceu misteriosamente. Conforme Karen explora o local, descobre segredos perturbadores, incluindo um menino preso em um armário selado com fita adesiva, e começa a vivenciar aparições sobrenaturais assustadoras, como a visão de uma mulher pálida. A narrativa avança e o mistério se aprofunda com a morte de Emma. O que está por trás dessas estranhas ocorrências?

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Roger Ebert deu uma estrela para The Grudge

Para surpresa de muitos, especialmente porque Ebert não havia analisado o original, ele foi enfático em seu desdém pelo remake. A principal reclamação do crítico era a fórmula cansada, que ele considerou repetitiva: personagens ouvindo ruídos assustadores decidem investigar, acabando vítimas de uma profusão de armadilhas mortais clássicas do gênero.

Além disso, Ebert criticou a escolha do diretor Takashi de fazer o filme todo em inglês e lamentou a ausência de elementos autênticos da cultura japonesa, argumentando que o uso do idioma original com legendas teria conferido maior verossimilhança. Para ele, o filme se passa quase inteiramente dentro de uma casa que não tem em si um visual assustador, deixando a ambientação pobre e pouco explorada.

O crítico ainda questionou a lógica da história, estranhando que as pessoas continuassem entrando no imóvel assombrado mesmo após relatos assustadores já fossem conhecidos. Ele não gostou da estrutura temporal fragmentada, tachando-a de incômoda, e viu poucas qualidades no estilo narrativo que usou anteriormente para elogiar filmes como Pulp Fiction e Memento.

Roger Ebert errou em alguns pontos

Apesar das críticas, The Grudge merece reconhecimento como um dos grandes filmes de terror da década. O ritmo é cuidadosamente construído, com sequências longas para criar tensão e um design de som exemplar, especialmente no efeito arrepiante associado à Kayako, a aparição fantasmagórica do filme. Assim como em outros projetos de Sam Raimi, o objetivo maior é assustar e entreter, não ser uma obra artística complexa.

Sobre a reclamação de Ebert quanto à fórmula, é importante lembrar que filmes de casas mal-assombradas seguem padrões que funcionam há décadas. O roteiro se apoia no esperado: personagens investigando sons misteriosos, desencadeando eventos sobrenaturais. Essa estrutura, ainda que previsível, é eficaz e faz parte do charme do gênero.

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Quanto à língua inglesa, a decisão foi estratégica para garantir apelo comercial no mercado americano. Filmes estrangeiros raramente têm sucesso no box office dos EUA, como comprova o exemplo de Parasite, que, embora aclamado, faturou apenas 20 milhões de dólares na América do Norte. Filmes renomados ambientados em outros países, como Gladiator, também adotam o inglês em diálogos para alcançar o público maior e viabilizar o retorno financeiro.

A crítica de Ebert sobre a ambientação também não se sustenta completamente. The Grudge é um filme sobre uma casa mal-assombrada, não um roteiro de turismo pelo Japão. O foco no espaço claustrofóbico da residência é proposital para aumentar a sensação de terror e confinamento. Quem quiser explorar mais do Japão pode acessar outros filmes ou, literalmente, pegar um avião.

Por fim, a rejeição ao enredo não linear parece injusta. Filmes aclamados em Hollywood já usaram esse recurso diversas vezes sem protestos da crítica. Se Ebert não teve problemas com Pulp Fiction ou Memento, não há razão para desdenhar da técnica em The Grudge.

É hora de reconsiderar o julgamento sobre The Grudge. Apesar das críticas severas, o filme alcançou sucesso financeiro, marcou época e impressionou muitos fãs do terror com sua atmosfera e construção de suspense. Roger Ebert, um gigante da crítica, talvez tenha sido precipitado em sua avaliação, subestimando um filme que, no fundo, faz o que se propõe muito bem: assustar.

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