No início dos anos 2000, Sam Raimi protagonizou uma jogada ousada ao convencer Takashi Shimizu, diretor de um dos filmes de terror sobrenatural mais aclamados do Japão, a refazer sua própria obra para o público americano. O resultado foi The Grudge, remake de Ju-On: The Grudge, produzido pela Ghost House Pictures, selo de Raimi. Com orçamento modesto de 10 milhões de dólares, o filme faturou impressionantes 187 milhões nas bilheterias, apesar da rejeição crítica que recebeu na época.
The Grudge manteve a essência quase intacta do original japonês, um feito bastante incomum quando se trata de remakes estrangeiros. Enquanto a maioria das adaptações americanas desloca a trama para cidades nos Estados Unidos, Shimizu optou por preservar o cenário original em Tóquio, inserindo personagens americanos para facilitar a identificação do público local. A narrativa não linear, que exige atenção do espectador para conectar os eventos, também foi mantida, reforçando o suspense e a atmosfera carregada do filme.
A história foca em Karen Davis, uma estudante americana de serviço social que é designada para cuidar de Emma, uma idosa catatônica, após o desaparecimento misterioso da cuidadora anterior. Karen então descobre um garoto preso em um armário lacrado e presencia eventos sobrenaturais perturbadores, incluindo aparições aterrorizantes de uma mulher pálida. A morte de Emma intensifica o mistério e a sensação de ameaça constante que cerca a residência maldita.
Apesar do sucesso comercial, o filme foi alvo de críticas severas, tendo recebido apenas 41% de aprovação no Rotten Tomatoes, contrastando com os 80% do original. O renomado crítico Roger Ebert classificou The Grudge com apenas uma estrela de quatro, acusando-o de seguir fórmulas batidas do gênero. Para Ebert, os personagens agiam de modo irracional ao investigar sons assustadores, contribuindo para o desgaste da lógica interna da trama.
Além disso, Ebert criticou a escolha de fazer todos os personagens falarem inglês, rejeitando o uso do idioma original japonês com legendas, o que segundo ele teria garantido mais autenticidade cultural. Ele também lamentou a ausência de locações icônicas do Japão, já que a maior parte do filme se passa dentro da casa mal-assombrada, que não causava o impacto visual que ele esperava. Sua rejeição à narrativa fragmentada resultou na acusação de ser apenas uma “nuisance”, ou incômodo, e não um recurso estilístico válido.
No entanto, muitas dessas críticas podem ser relativizadas. A estrutura não linear é um recurso amplamente utilizado em grandes produções, como Pulp Fiction e Memento, que nunca passaram por tais comentários negativos por parte de Ebert. A escolha do idioma inglês tem uma justificativa comercial clara: filmes em língua estrangeira frequentemente têm um desempenho fraco nas bilheterias americanas, justamente o que se viu com Parasite, que faturou modestos 20 milhões na América do Norte apesar do prestígio global. Adaptar o idioma facilita a imersão do público local e aumenta o apelo comercial, prática comum em Hollywood mesmo em filmes ambientados em outros países.
Quanto ao cenário, The Grudge não é uma trama sobre o Japão, mas sim um filme de casa mal-assombrada, fim. Investir pesado em locações exóticas não faria sentido narrativo, pois o ambiente claustrofóbico é parte essencial da atmosfera de horror. Se o espectador deseja visitar o Japão, certamente há muitos documentários e filmes que mostram suas belezas.
Por fim, o filme se destaca pela construção de tensão lenta e constante, algo que falta em várias produções atuais que preferem sustos baratos. A ambientação sonora, com destaque para o inquietante som emitido por Kayako, personagem central do mal, é exemplar e amplifica o impacto assustador da obra. The Grudge cumpre seu propósito primordial: provocar medo genuíno e entreter o público fã de horror, não agradar críticos que buscam funções artísticas.
Mesmo com sua trama considerada por alguns como “formulaica”, o filme se apoia em um padrão consolidado do gênero que resiste ao tempo, onde o desconhecido chama os personagens para investigarem e, inevitavelmente, enfrentarem o perigo. A crítica à falta de lógica em relação aos personagens que ignoram o perigo constante é válida, mas não suficiente para invalidar a experiência como um todo.
Com um elenco liderado por Sarah Michelle Gellar, The Grudge se tornou um clássico do terror dos anos 2000, abrindo caminho para duas continuações e consolidando Takashi Shimizu no mercado americano. É hora de reconhecer que, mesmo o sábio e influente Roger Ebert, um dos maiores críticos de cinema da história, errou ao subestimar a qualidade e o impacto duradouro desse remake.
The Grudge permanece até hoje como uma obra importante para fãs do gênero, combinando o melhor do suspense japonês com o vigor da produção hollywoodiana, provando que um filme que assusta e diverte merece ser celebrado, independentemente do peso da crítica inicial.
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