Por Que ‘Feitiço do Tempo’ Levou 12 Anos Para Roger Ebert Reconhecer Seu Status de Obra-Prima
Toda pessoa fã de cinema sabe: uma obra vista hoje pode ganhar novos significados e valor ao longo do tempo. Mesmo os maiores críticos de cinema não estão imunes a isso. Roger Ebert, sem dúvida um dos mais respeitados críticos da história, passou por essa experiência com o clássico cult Feitiço do Tempo (1993), estrelado por Bill Murray e dirigido por Harold Ramis. Embora tenha gostado do filme desde seu lançamento, só doze anos depois Ebert admitiu que havia subestimado a profundidade e a importância da obra.
Feitiço do Tempo: Uma Comédia com Toques Filosóficos que Conquistou o Público
Lançado em 12 de fevereiro de 1993, Feitiço do Tempo apresenta o personagem Phil Connors, um meteorologista cínico que fica preso num loop temporal no dia 2 de fevereiro, o Dia da Marmota. Narrativa inovadora para a época, a produção misturava comédia, drama e fantasia, conquistando público e crítica. O sucesso nas bilheterias, com mais de 105 milhões de dólares arrecadados mundialmente, abriu caminho para um subgênero cinematográfico centrado em histórias de repetição temporal.
Desde o começo, o filme foi elogiado por sua originalidade e pela maneira como trazia contrastes entre humor e reflexão existencial, mas não recebeu de imediato a aclamação máxima dos críticos mais tradicionais.
O Primeiro Olhar de Roger Ebert: Um Elogio Contido
Na época do lançamento, Roger Ebert classificou Feitiço do Tempo com 3 de 4 estrelas, um reconhecimento positivo, mas com certa moderação. Ele observou na resenha original que, apesar de ser basicamente uma comédia, o filme apresentava “uma dinâmica subjacente um pouco mais profunda”.
Ele destacou ainda que, embora filmes de comédia com fórmulas sejam comuns, aqueles baseados em ideias originais são mais raros, e Feitiço do Tempo se destacava por mostrar “como o tempo às vezes pode nos dar uma chance”. Mesmo gostando, Ebert reconheceu que sua avaliação naquele momento não chegava a captar todo o peso e o impacto cultural do longa.
A Redescoberta: Uma Obra-Prima Filosófica e Espiritual
Doze anos depois, Ebert revisitou o filme com novos olhos, entregando uma resenha mais entusiasta e concedendo a nota máxima, 4 de 4 estrelas. Nessa análise tardia, ele confessou ter subestimado a profundidade da obra inicialmente, afirmando que sua primeira apreciação foi “seduzida pela moderação alegre” e que Feitiço do Tempo era, na verdade, um daqueles filmes que “se enraízam na memória”.
O crítico ressaltou que a jornada de Phil Connors serve como uma parábola para a era materialista em que vivemos e representa um processo de crescimento pessoal e espiritual que, segundo ele, dialoga com temas presentes em projetos mais pessoais do próprio Bill Murray, como o filme A Escolha de Sofia.
Essa revisão culminou com a inclusão de Feitiço do Tempo na prestigiada lista “Great Movies” do site RogerEbert.com, colocando o longa ao lado de obras monumentais lançadas no mesmo ano, como A Lista de Schindler e o clássico da animação do Studio Ghibli, Meu Amigo Totoro.
Por Que o Filme É Muito Mais do Que uma Comédia Leve
Além do seu aspecto divertido, Feitiço do Tempo discute temas complexos como o sentido da vida, a possibilidade e importância da mudança pessoal e a redescoberta do valor do presente. A repetição constante do mesmo dia impõe um convite para o protagonista refletir sobre seus próprios defeitos e prioridades, um processo que ressoa para qualquer espectador que enfrenta dilemas existenciais.
A estrutura do filme se tornou base para inúmeras outras produções que exploram loops temporais, e sua mensagem chega a ser vista como uma meditação espiritual moderna, algo bem raro para filmes mainstream dos anos 90.
Performance de Bill Murray: Entre o Cômico e o Profundo
O papel de Phil Connors é talvez um dos mais complexos da carreira de Bill Murray, mesclando sarcasmo, frustração e vulnerabilidade de forma brilhante. Essa performance ousada é fundamental para que o público embarque na transformação do personagem, que vai da superficialidade egocêntrica à empatia verdadeira.
Roger Ebert, em sua análise tardia, enalteceu justamente essa jornada, vendo nela não apenas um roteiro inteligente, mas um convite para repensar valores em uma sociedade cada vez mais focada em bens materiais.
Harold Ramis e Danny Rubin: A Mente Por Trás da Obra
Vale destacar que a criação do roteiro ficou a cargo de Harold Ramis e Danny Rubin, que combinaram humor, fantasia e filosofia de um jeito que parecia arriscado, mas se revelou eternamente relevante. Ramis também dirigiu o filme com um toque delicado, permitindo que a comédia se encontrasse organicamente com a mensagem mais profunda.
Impacto Cultural e Legado do Filme
Desde seu lançamento, Feitiço do Tempo influenciou diretores, roteiristas e produções em diversas mídias. O conceito do loop temporal ganhou versões em séries, filmes e mesmo videogames, atestando a força e originalidade da ideia.
Além disso, a obra permanece como um marco que prova que o entretenimento pode sim falar de temas complexos sem perder o apelo popular. A mudança no olhar de Roger Ebert reforça o quanto o tempo também é capaz de lapidar nossa compreensão sobre arte.
Se você ainda não assistiu Feitiço do Tempo, prepare-se para uma experiência que mistura risadas com reflexão, protagonizada por um Bill Murray imbatível e sustentada por um roteiro cuja profundidade só é plenamente percebida com o passar dos anos. E, se você já é fã, sabe que essa obra-prima merece ser revisitada sempre, para redescobrir novos sentidos e se conectar com suas próprias jornadas pessoais.
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